Arquivo do dia: quarta-feira, 29/8/2007

A propósito

As grandes coleções são vastas, não completas. Incompletas: motivadas pelo desejo de completar. Sempre há mais um. E mesmo que você tenha tudo — o que quer que isso seja — você talvez queira uma cópia (versão, edição) melhor que a sua; ou, se são objetos produzidos em massa (cerâmica, livros, artefatos), simplesmente uma cópia extra, caso a sua seja perdida, roubada, quebrada ou estragada. Uma cópia de reserva. Uma coleção-sombra.
Uma grande coleção particular é um concentrado material que continuamente estimula, superexcita. Não só porque sempre pode receber acréscimos, mas porque em si já é demais. A necessidade do colecionador é precisamente de excesso, exagero, profusão.

É demais — e é justo o suficiente para mim. Alguém que hesita, que pergunta, Será que eu preciso disso? Será que é mesmo necessário? não é um colecionador. Uma coleção é sempre mais do que é necessário.

SONTAG, Susan. O amante do vulcão. Trad. Isa Maria Lando. São Paulo, Cia. das Letras, 1994. Pág. 76.

Dramatis Personæ (36): Amadeu

Coleciona bilhetes de pedintes.

Toda vez que um deles entra no ônibus, distribuindo seus papeizinhos com pedidos de ajuda, seus olhos brilham e a saliva se avoluma no canto da boca. Esfrega as pontas dos dedos, antegozando o momento. Quando o tesouro se aproxima, agarra-o, ávido. E mal pode esperar que o pedinte dê as costas para guardar a nova aquisição no bolso.

Às vezes arrumou brigas com pedintes que queriam o papel de volta. Ofereceu-se até para pagar pelo bilhete — em vão, porque o código de ética da categoria e principalmente o seu orgulho impedem que o material de trabalho seja vendido assim.

Passou a ser visado. Vendedores de bala, principalmente, conhecem bem seu rosto e negam-lhe até a amostra grátis que dão aos outros passageiros. Desenvolveu suas estratégias. Às vezes finge estar dormindo, depois pega o papelzinho do belo tipo faceiro que tinha ao seu lado.

O que ele faz com os bilhetes que coleciona é um mistério. Mas as melhores coleções são as completamente inúteis.