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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Biblioteca de Babel (11): Khosríada

Ninzamudin Khosra, o grande vanguardista persa, certa vez idealizou um poema que, a toda vez que fosse lido, tivesse uma palavra acrescentada ou alterada por seu leitor, no que críticos contemporâneos consideram uma notável antecipação da interatividade que só se tornaria possível séculos mais tarde.

Amir al-Khan, biógrafo de Khosra, sustenta que ele mais tarde mudou ligeiramente o seu projeto e de fato compôs um longo poema, do qual os leitores devem riscar ou apagar uma palavra a cada leitura. Infelizmente, tamanho foi o sucesso que sucessivos leitores eliminaram até a última palavra do texto, tornando o poema, assim, uma obra completa, segundo a vontade do autor.

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A propósito

As grandes coleções são vastas, não completas. Incompletas: motivadas pelo desejo de completar. Sempre há mais um. E mesmo que você tenha tudo — o que quer que isso seja — você talvez queira uma cópia (versão, edição) melhor que a sua; ou, se são objetos produzidos em massa (cerâmica, livros, artefatos), simplesmente uma cópia extra, caso a sua seja perdida, roubada, quebrada ou estragada. Uma cópia de reserva. Uma coleção-sombra.
Uma grande coleção particular é um concentrado material que continuamente estimula, superexcita. Não só porque sempre pode receber acréscimos, mas porque em si já é demais. A necessidade do colecionador é precisamente de excesso, exagero, profusão.

É demais — e é justo o suficiente para mim. Alguém que hesita, que pergunta, Será que eu preciso disso? Será que é mesmo necessário? não é um colecionador. Uma coleção é sempre mais do que é necessário.

SONTAG, Susan. O amante do vulcão. Trad. Isa Maria Lando. São Paulo, Cia. das Letras, 1994. Pág. 76.

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Dramatis Personæ (36): Amadeu

Coleciona bilhetes de pedintes.

Toda vez que um deles entra no ônibus, distribuindo seus papeizinhos com pedidos de ajuda, seus olhos brilham e a saliva se avoluma no canto da boca. Esfrega as pontas dos dedos, antegozando o momento. Quando o tesouro se aproxima, agarra-o, ávido. E mal pode esperar que o pedinte dê as costas para guardar a nova aquisição no bolso.

Às vezes arrumou brigas com pedintes que queriam o papel de volta. Ofereceu-se até para pagar pelo bilhete — em vão, porque o código de ética da categoria e principalmente o seu orgulho impedem que o material de trabalho seja vendido assim.

Passou a ser visado. Vendedores de bala, principalmente, conhecem bem seu rosto e negam-lhe até a amostra grátis que dão aos outros passageiros. Desenvolveu suas estratégias. Às vezes finge estar dormindo, depois pega o papelzinho do belo tipo faceiro que tinha ao seu lado.

O que ele faz com os bilhetes que coleciona é um mistério. Mas as melhores coleções são as completamente inúteis.

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Bestiário (26): Lupanda

Nas montanhas chinesas, ele enfrenta uma ameaça de desaparecimento ainda mais grave e cruel do que a do panda gigante. E irônica, pois é ao mesmo tempo o algoz e a vítima no processo de extinção de seu parente próximo.

O nome significa algo como “panda ainda mais gigante”, e ele é isso mesmo. Um panda mais alto, mais pesado e mais feroz. Igualmente preto e branco, mas com as cores invertidas, como num negativo.

A outra diferença importante é que, em vez de se transformar num pacífico comedor de bambu, o lupanda manteve os instintos carnívoros de seus ancestrais. Caçador destemido, sua principal presa é justamente o panda gigante. E a sua voracidade ajudou a dizimar a espécie.

Hoje, devido ao declínio na população de pandas gigantes que ele mesmo provocou, o lupanda está em extinção. Mas as autoridades chinesas se recusam a permitir a circulação de qualquer informação sobre o animal, cuja existência a Academia Estatal de Ciências (subordinada ao Comitê Central do partido) nega veementemente.

Alguns ambientalistas denunciam que o predador é caçado furiosamente pelos chineses, que assim tentam melhorar as condições de sobrevivência do panda gigante, um animal bem mais eficiente para atrair as simpatias de todo o mundo.

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Gugleiros (3)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 20/8 - gog
Procure no Gógou.

Terça, 21/8 - genealogia lindermann
Sinto muito. Não publicamos spoilers.

Quarta, 22/8 - melhores poemas jamais escritos
Se eles jamais foram escritos, vai ser difícil achar, concorda?

Quinta, 23/8 - rosto de shiva
Fez bem em não buscar a imagem. Você morreria fulminado.

Sexta, 24/8 - como fazer uma arapuca
Te peguei.

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Dramatis Personæ (35): Johann van Neessen

Em sua época chegou a ser considerado o maior cartógrafo da Europa, o que valia dizer do mundo. Já nos últimos anos de vida, porém, viu seus mapas sendo desprezados e tidos como incorretos, desgosto que provavelmente foi a causa da sua morte, aos 57 anos, em Haia.

O pecado de Van Neessen era ver o mundo como retratistas vêem pessoas. O que os pintores faziam pelos nobres que encomendavam retratos, mostrando seus modelos mais belos e nobres do que realmente eram, o cartógrafo reproduzia nos seus mapas, ampliando fronteiras, montanhas, vales, rios e mares de acordo com o desejo dos reis e príncipes.

Van Neessen provavelmente riria do GPS, do Google Maps e de outras ferramentas. Ou pelo menos dos tolos que acreditam ver nas imagens de satélite uma reprodução fiel e objetiva do mundo em que vivem.

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Bom apetite

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Eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Chorando e bebendo
Na mesa de um bar
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz
Não lhe deixou falar

Ai, mas eu gostei tanto
Tanto quando me contaram
Que tive mesmo que fazer esforço
Pra ninguém notar

O remorso talvez seja a causa do seu desespero
Você deve estar bem consciente do que praticou
Me fazer passar essa vergonha com um companheiro
E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou

Mas enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar

(Lupicínio, “Vingança”, 1952)

O velho gaúcho sabia que vingança é um prato que se come frio ou quente, com molho ou a seco, cru ou cozido, no ponto ou queimado, salgado ou doce, e até se bebe em vez de se comer. É a grande pedida para comemorar o Dia do Inimigo, amanhã.

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Casa nova

Viverei com o Catete, o Largo do Machado, a Praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. Há lá coisas esquisitas, mas sei eu se venho achar em Andaraí uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que sabemos. Lá os meus pés andam por si.

(Machado, “Esaú e Jacó”, cap. XXXII)


Quase concluída a mudança, acho que já estou em condições de enumerar as sete maravilhas da Gago Coutinho:

7 – Adega do Juca
6 – APA São José
5 – Casas de ofício
4 – Mercadinho São José
3 – Largo do Machado
2 – Parque Guinle
1 – Ela.

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Corra para a locadora

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Faltam apenas quatro dias para o Dia do Inimigo. E se você ainda não sabe o que fazer para comemorar uma data tão importante no calendário festivo cívico religioso e folclórico, pode conferir algumas dicas de filmes sobre inimigos:

1 – Inferno no Pacífico (“Hell in the Pacific”), John Boorman, 1968. Lee Marvin e Toshiro Mifune brincando de cão e gato numa ilha deserta. Refilmado como “Inimigo meu” (Wolfgang Petersen, 1985), com Louis Gosset Jr no constrangedor papel de um alienígena grávido.

2 – Dois velhos rabugentos (“Grumpy old men”), Donald Petrie, 1993. Jack Lemmon e Walther Matthau como dois sujeitos que adoram se odiar.

3 – O grande truque (“The prestige”), Christopher Nolan, 2006. Hugh Jackman e Christian Bale levam a arte de dar o troco às últimas conseqüências e David Bowie rouba a cena.

4 – O corvo (“The raven”), Roger Corman, 1963. Poe deu voltas no túmulo, mas Vincent Price e Boris Karloff protagonizam o melhor duelo de magia da história do cinema.

5 – Os duelistas (“The duelists”), Ridley Scott, 1977. Keith Carradine e Harvey Keitel mostram que nada é melhor que disputar o mesmo duelo de sempre.

Mas lembre-se: a categoria “filmes para recomendar ao inimigo” é outra. Aí entram “Betman begins”, “Zardoz” e coisas parecidas.

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Gugleiros (2)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 13/8 - resumo cemitério de elefantes
Onde ficam elefantes mortos. Não consigo resumir mais do que isso.

Terça, 14/8 - HISTORIAS REAIS DE AMOR
Continue procurando e boa sorte. Um dia vai encontrar.

Quarta, 15/8 - Resumo O Cão dos Baskerville
Homem se alista em baleeiro e faz amizade com um arpoador polinésio, enquanto capitão obcecado tenta de todas as formas caçar grande cachalote albino. Imediato passa a perna nos franceses, capitão de outro navio procura seu filho perdido e Queequeg prevê sua morte. Baleia afunda como satã, que não desce ao inferno sem levar consigo uma parte do paraíso. Pode escrever e diga ao seu professor que a melhor parte é a cena do balcão.

Quinta, 16/8 - colheita de nemesea
Só dia 23, filho.

Sexta, 17/8 - “o direito de nascer” helena “rádio nacional”
Tente Ludmila Guinle.

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Biblioteca de Babel (10): Lista telefônica universal

Na verdade não é um catálogo no sentido tradicional, com nomes listados por ordem alfabética e os números correspondentes. Em vez disso, expõe um método infalível para descobrir o telefone de qualquer ser humano do planeta.

O projeto de matemáticos indianos e cabalistas israelenses mostra como uma série de cálculos permite encontrar o número desejado a partir de algumas informações básicas: nome completo, data de nascimento, tipo sanguíneo e orixá de frente.

Todo o universo obedece a um padrão.

Ao que aprece, o livro funciona também como oráculo. Pelo menos um político já teria feito os cálculos ensinados pelos especialistas para saber se algum dia seu telefone será o da casa presidencial.

De acordo com o método, daqui a 17 anos meu código de área será 678, ou seja, Vanuatu.

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Clap, clap, clap

Laerte

Uma genial do Laerte, só para lembrar que falta uma semana para o Dia do Inimigo.

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Dramatis Personæ (34): Ainazade

Como ao sultão desgostassem as contadoras de histórias, as quais considerava todas incorrigíveis e contumazes traidoras, que sempre o frustravam com os fins das suas narrativas, determinou que a cada noite se casaria com uma delas e ao amanhecer, quando a noiva chegasse ao fim da história, mandaria cortar sua cabeça.

Centenas de jovens morreram assim. Até que Ainazade, a filha do grão-vizir, ofereceu-se para ser a próxima esposa, ainda que sob os protestos do pai.

Na noite de núpcias, porém, surpreendeu o sultão com carícias tão sedutoras que passou-se toda a noite e ele até mesmo se esqueceu de ordenar uma história. Ao amanhecer, adiou a execução para o dia seguinte. Mas na segunda noite ela ensinou ao marido coisas de que ele jamais suspeitara. E mais uma manhã chegou, e no dia seguinte foi assim novamente.

Durante mil e uma noites Ainazade seduziu o sultão. E ao fim ele percebeu que algumas histórias podem terminar bem, e desistiu de cortar a cabeça da sua mulher.

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Bestiário (25): Maldergues

Quando chegavam a uma aldeia, formando uma gigantesca nuvem, os camponeses clamavam aos céus, pensando que eram gafanhotos. Mas bastava ver mais de perto para perceber o engano. E, ao contrário daqueles insetos, deixavam em paz as plantações.

Aliás, não prejudicavam as aldeias e fazendas de forma alguma. Apenas chegavam e ficavam por ali, sem  nada fazer. Depois de algumas horas, quando todos já estavam aliviados e pareciam acostumados com a presença dos visitantes, sem qualquer aviso eles levantavam vôo e partiam tão rapidamente quanto tinham chegado.

Era então que começava a praga. Os camponeses tentavam em vão entender o que trouxera os maldergues e o que os fizera partir. A incompreensível gratuidade do destino provocava uma epidemia de depressão. As vilas definhavam,  a colheita apodrecia nos campos.  E a nuvem ia espalhar a desgraça em outra parte.

Em 1329, o rajá de Majadrava, sabendo que uma nuvem de maldergues se aproximava da sua capital, mandou incendiar a cidade. Preferia a destruição que o desespero, afirmou.

Os maldergues morreram nas chamas, e nunca mais se ouviu falar deles.

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Gugleiros (1)

As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:

Segunda, 6/8 - primeiro registro aranha
“Amazing Fantasy” nº 15, agosto de 1962, Stan Lee e Steve Ditko.

Terça, 7/8 - o que são porinas
A africana ou a asiática?

Quarta, 8/8 - porque as plantas carnivoras dirigem insetos
Porque eles são péssimos atores e precisam de uma boa direção.

Quinta, 9/8 - MOTEL QUE TENHA CAVALO DE PAU
Tem certeza de que é isso que você quer?

Sexta, 10/8 - significado da palavra verdura
Coma a salada toda que depois eu respondo.

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Biblioteca de Babel (9): Quase sonetos

Adriana Albuquerque apresenta em seu novo livro 50 poemas de 13 versos e um desafio. Ela promete ler com cuidado as sugestões dos leitores para o 14º verso de cada um, e escolher as melhores para publicar na segunda edição da obra.

Para mais de um crítico, porém, a proposta de “Quase sonetos” é “desonesta”. Eles garantem que é impossível completar os poemas, e que cada um já é uma obra perfeita, completa e acabada. Seriam os melhores da autora, não fosse pela sua insistência em considerá-los capengas.

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Postais do Exílio (19): Vila Magardeira

Diante da igreja há uma praça, e no centro da praça, um poço. Quando há lua cheia, o luar se reflete no fundo do poço. E nessas noites, quem olhar para a água verá o rosto da única pessoa que amou ou amará de verdade em toda a vida.

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História Universal da Infâmia (4)

Uma jornalista é presa e vai a julgamento por fazer reportagens usando uma microcâmera oculta.

O nome do filme, como sempre, está nos comentários.

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Postais do Exílio (18): New Hyndburn

Há apenas uma hospedaria na cidade, o New Hyndburn Hotel. E seus proprietários mantêm o compromisso do fundador, que jamais cobrou um centavo de qualquer hóspede que, na manhã seguinte, fizesse em frente à entrada do edifício algo que jamais tivesse feito na vida.

Todos os dias os moradores e muitos turistas chegam para ver o espetáculo. Há de strip-teases a orações, de beijos gays a malabarismos, de porres de uísque a declarações de amor.

Um dia um filósofo, ao pagar a conta, disse porém que nada faria. E deu um calote, o primeiro da sua vida. Até agora se discute se ele de fato pagou a dívida, pois nunca havia feito tal coisa, ou se ficou devendo, já que nesse caso não dera calote algum.

Arquivado como:Postais do Exílio

Com carinho

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Ryan Block apresenta várias sugestões de presentes que servem perfeitamente para comemorar o Dia do Inimigo. Meu preferido é a Hello Kitty que explode. Mas os tradicionalistas sempre podem recorrer às formas mais clássicas de presentear.

Faltam apenas 19 dias! E você, o que vai dar?

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Por aqui

Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.