Arquivo do mês: julho 2007

Leseira

Ver�ssimo, 'As Cobras', 1985

Para quem está cansadinho.

Dramatis Personæ (33): Dr. Facundo

Abandonou uma bem-sucedida carreira de cirurgião-geral para dedicar-se ao que, mais do que uma nova especialidade, é uma verdadeira cruzada, tornando-se um pioneiro apendicista.

Na contramão de todos os compêndios de Medicina, Dr. Facundo critica radicalmente a extirpação do apêndice, mesmo inflamado. Segundo defende em seu livro “Apendicectomia, a grande mutilação”, o órgão tem uma importância crucial para o ser humano. A ponto de ser preferível morrer com as dores mais pavorosas do que abrir mão dele.

Em resumo, ele argumenta que o apêndice, por ser aparentemente inútil, constitui por isso mesmo o que existe no ser humano que mais se aproxima de uma obra de arte. É o verdadeiro centro do prazer estético; em última análise, portanto, o que nos diferencia dos animais. Mais até do que o superestimado polegar opositor ou o cérebro pouco superior ao dos chimpanzés.

Foi expulso do Hospital Geral e teve seu registro cassado pelo CRM. Mas não desistiu de sua missão.

Por Nêmesis!

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As origens da comemoração do Dia do Inimigo são controversas. Há quem diga que foi nessa data que foi exibido o desenho animado em que Tom e Jerry, até então amigos, se enfrentaram pela primeira vez, numa virada que salvou os personagens do esquecimento a que pareciam condenados e criou uma das duplas de maior sucesso na história da animação — uma prova do valor das grandes inimizades.

Outra hipótese é de que em 23 de agosto de 1329 um servo do Conde de Murchat roubou uma galinha de uma granja das terras do Barão de La Sennette, iniciando um conflito que levou a batalhas sagrentas e, em última análise, à divisão até hoje entre esquerda e direita na França.

A razão mais provável, entretanto, é de que se trate de uma atualização da Nemesea, a festa grega em homenagem a Nêmesis, deusa da vingança. Alguns historiadores afirmam que para celebrar a festa as pessoas davam a seus inimigos bolsas de estrume, sendo esta, portanto, a origem da expressão “presente de grego”, e não o cavalo-de-pau de Odisseu às portas de Ílion. Ou quem sabe o cavalo tenha sido ele mesmo inspirado pelo costume, evidentemente desconhecido dos troianos.

Timeo danaos et dona ferentes.

Mais estranho que a ficção (1)

Arraias voadoras, aqui e na Flórida.

Prisioneiras grávidas, aqui e no Vietnã.

Harpistas metaleiras, aqui e em Michigan.

Se alguém souber que a realidade andou me plagiando outra vez, por favor avise.

Dramatis Personæ (32): Mirza

Da mesma forma que Tarzan dos macacos e Mowgli, o menino-lobo, cresceu sem contato algum com seres humanos, criada pelos animais que a adotaram. No seu caso, porém, foram morcegos.

Hematófagos.

Mirza, a menina-vampira, como a óbvia imprensa passou a chamá-la, passou por um longo e difícil processo de integração à sociedade. Mas conseguiu reduzir a praticamente zero o consumo de sangue.

Às vezes, ainda voa pela cidade durante a noite.

Feliz aniversário

Puebla

Angel Villa, se eu pudesse eu ia mesmo que fosse só pra ouvir isso. Mas o mundo não pode ficar sem o informe da abertura da Bolsa de Kuala Lumpur.

Biblioteca de Babel (8): El Rey de la Raya

O mais antigo e também mais importante tratado de estratégia sobre o jogo-da-velha foi escrito em 1793 por Juan Pérez y Montea, o primeiro jogovelhista a alcançar a categoria de Grande Mestre.

Sem falsa modéstia, o autor não assina o livro. Pelo simples motivo de que o rei do jogo de tres en raya não pode ser outro senão ele mesmo, Montea.

A primeira parte registra brevemente a história e as origens do jogo. Na segunda, o autor explica o cálculo dos 255.168 jogos possíveis, como preâmbulo para as suas considerações sobre estratégia tanto de quem joga com o X quanto com o O.

É a última parte, porém, que faz de “El Rey de la Raya” um clássico. Negando a tese, já então muito difundida, de que dois jogadores minimamente qualificados sempre empatarão, Montea vai fundo na psicologia do jogo. E demonstra como, por uma leitura cuidadosa das expressões e reações do adversário, é possível induzi-lo ao erro e vencer quase todas as partidas.

O capítulo “psicológico” de Montea é ainda hoje reverenciado por enxadristas e estrategistas militares.

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A um mês de mais um Dia do Inimigo, Almanaque lança um apelo para que todos se unam nessa grande celebração. Cães e gatos, rubro-negros e vascaínos, petistas e tucanos, árabes e judeus, baianos e pernambucanos, brasileiros e argentinos, Horda e Aliança, gregos e troianos, os fãs de Emilinha e os de Marlene, chaguistas e amaralistas: vamos todos pensar numa forma criativa de sacanear o outro lado.

Porque odiar é um ato de amor.

Bestiário (23): Manicê

Há também quem o chame de Manassé ou Manissé. De qualquer forma, há poucas descrições dele e nenhuma igual a outra. Apenas numa coisa todos concordam. Seus olhos são coloridos, brilhantes e giram.

Em geral, os olhos do Manicê são a última coisa que as pessoas se lembram de ter visto antes de cair numa espécie de transe, com alucinações de todo tipo.

Há quem se gabe de ter agarrado um deles por trás e arrancado seus olhos a ponta de faca. Inútil. Os olhos, fora da face, perderam a cor, o brilho e o movimento, e com eles as capacidades alucinógenas.

Dizem que o Manicê só come fungos e coisas estragadas. Também dizem que ele paralisa suas presas com o olhar, mas felizmente nunca come seres humanos, apenas por não gostar do sabor, preferindo pequenas aves e, ocasionalmente, caxinguelês.

Dramatis Personæ (31): Giacomo Leone

O Comendador freqüentava a ópera e a igreja com a mesma assiduidade. E deixou de ir a uma e à outra ao mesmo tempo. Nunca explicou a razão, mas não faltariam bons motivos.

É claro, porém, que as especulações surgiram.

A mais aceita por todos é a de que ele conseguiu capturar e manter prisioneiro em seu palazzo nada menos que um anjo. O seu canto supera os castratti do Scala, e é uma emoção espiritual que ofusca qualquer missa, mesmo em Florença.

Pelo menos um Papa já teria ido ao palazzo para tentar convencer o Comendador a soltar seu prisioneiro. Chegou furioso, ameaçando tomar sérias providências caso não fosse atendido. Saiu  prometendo silêncio e indulgências em troca da chance de voltar a ouvir o anjo.

Bestiário (22): Falsa Dionéia

Estima-se que para cada 27 exemplares da verdadeira dionéia, existe uma que não é a planta carnívora. E na verdade não é uma planta, e sim um animal.

A falsa dionéia é uma das raras aranhas que elaboram teias com texturas e cores que imitam à perfeição  uma planta.  No seu caso, reproduzindo o engenhoso mecanismo de captura de insetos da dionéia. Quando uma presa é capturada, a aranha deixa sua toca sob o solo, onde ficaria a “raiz” da planta, come a vítima e reconstrói a teia-planta.

Dramatis Personæ (30): Tarja Kalevanaa

Finlandesa de Tampere, estudou harpa em Helsinque mas, depois dos primeiros concertos, abandonou o instrumento tradicional, que trocou pelas versões eletrificadas de Camac e Stivell. Formou sua própria banda de symphonic metal, a Harpcore.

É chamada de “o anjo caído da harpa finlandesa”, aliás título do seu segundo álbum, mas não me perguntem como se diz isso em Suomi.

Tanabata Matsuri



Era uma vez um imperador que tinha uma filha. Ela se chamava Orihime, o que quer dizer Princesa Tecelã. E tinha esse nome porque de seus dedos habilidosos saíam os tecidos mais delicados de todo o império. E seu pai ficava feliz por poder vestir roupas que ninguém mais seria capaz de ter.

Um dia, porém, Orihime não conseguiu mais trabalhar. Ela estava triste porque toda a sua vida se resumia a fiar e tecer, e nunca sobrava tempo para outras coisas — namorar, por exemplo. O imperador se apiedou dela e mandou buscarem um noivo: Kengyuu, o Guardador de Rebanhos, que vivia do outro lado do grande rio.

Orihime e Kengyuu se casaram e receberam todas as bênçãos dos céus. Amaram-se e foram muito felizes. Até o dia em que o imperador percebeu que Orihime negligenciava suas tarefas de tecelã para se dedicar aos prazeres do matrimônio. Furioso, separou os amantes, mandando Kengyuu de volta para o outro lado do rio. Apenas uma vez por ano, na sétima noite do sétimo mês, o Barqueiro da Lua pode trazer o pastor de volta para os braços da princesa. Isso se o imperador estiver satisfeito com sua produção; caso contrário, ele manda a chuva inundar o rio.

Dizem porém que, mesmo quando as chuvas interditam a passagem, Kengyuu encontra uma forma de rever Orihime. As pêgas, em revoada, unem-se para formar uma ponte de plumas, de forma que o Guardador de Rebanhos possa atravessar o rio e celebrar seu amor pela Tecelã.

Domingo é Tanabata Matsuri, o encontro da estrela Vega com Altair, dia de escrever pedidos em papéis coloridos e pendurar nas árvores. De preferência, na Liberdade, comendo takoyaki.

Que o Céu nos recompense com a graça de um amor.


Atualizando: Aparentemente, muito menos papéis amarelos (com pedidos de bens materiais) que em outros anos, o que seia um bom sinal. Mas estão lá os desejos de acertar na loteria, passar no concurso público e ver a pizzaria dar certo.Altruístas pedem a paz no mundo, enquanto uma criatura solitária, num papel cor-de-rosa, manifesta seu desejo não só de encontrar sua alma-gêmea mas também de a reconhecer imediatamente.

E muita, muita gente na Praça da Liberdade.

Biblioteca de Babel (7): Am

Equipes de lingüistas, arqueólogos e antropólogos finalmente conseguiram descobrir a primeira obra literária de todos os tempos.

Há anos buscava-se o primeiro de todos os livros; mas como a literatura é anterior à escrita, não bastava encontrar o primeiro registro material. O alvo estava além.

As conclusões dos especialistas foram de que o primeiro homem a usar algo parecido com uma linguagem foi também o primeiro poeta. Porque, ao articular uma palavra, estabeleceu sentido onde não havia. Assim, a busca passou a ser pela Palavra Original. Seu eco, encontrado com variações em 98,73% das línguas vivas ainda existentes no planeta, é apenas uma sílaba.

Am.

Essa é, então, a primeira palavra, o primeiro poema, a primeira obra. Pode tre significado, centenas de milhares de anos atrás, algo como “estou com fome”, “chove” ou “lá vem o mamute outra vez”. Hoje ela significa o ato de nomear. E, portanto, é tão atual quanto no dia da sua criação.

Como todo verdadeiro poema.

Bestiário (21): Javusz

Ao contrário de seus primos próximos, como o chacal e a hiena, jamais caça em grupos. Aliás, passa a maior parte do tempo solitário.

E vegetariano.

Os Javusze só se procuram na época do acasalamento, quando os machos, para se exibir às fêmeas, competem entre si pelas maiores e melhores presas. Alguns chegam a abater animais com o triplo de seu tamanho.

Depois da procriação, voltam à sua vida solitária. E às verduras.

Postais do Exílio (16): Endesburg

Na torre da Prefeitura, em vez de um relógio, há 12. Cada um marca um horário diferente, e seus ponteiros avançam no seu próprio ritmo. Um deles parece até mesmo estar parado, mas garantem que ele na verdade avança meio minuto por década.

Pode parecer estranho num cantão que se orgulha de produzir os melhores relojoeiros do país. Mas, como numa engrenagem muito bem planejada, tudo se explica perfeitamente.

O maior mestre-relojoeiro de Endesburg, dizem, construiu os 12 relógios de acordo com a Harmonia das Esferas. Quando os 12 se sincronizarem e marcarem precisamente o mesmo horário, o seu carrilhão tocará pela primeira e única vez. E então será o Fim.