Almanaque

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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Dramatis Personæ (29): Dircinha

A mãe fora costureira das mais requisitadas, não só no bairro mas bem além. E dela, tanto quanto das freguesas, sempre ouviu os elogios à excelência do trabalho. Comprovado, todas diziam, pelo fino acabamento mesmo do lado do avesso.

Uma boa costureira, ensinava Dona Anunciata, se reconhece pelo capricho do avesso.

E Dircinha aprendeu a lição. Ainda bem jovem, tornou-se tão famosa quanto a mãe.  Seus vestidos podem ter um caimento péssimo, as medidas todas erradas, os botões desencontrados das casas. Mas os avessos… ah, os avessos! Quem vê, não quer outra costureira.

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Dramatis Personæ (28): Professor Lutz

Físico teórico brilhante, descobriu uma falha nos modelos de Einstein, idealizou uma forma de produzir um vórtex espaço-temporal e então decidiu passar para a prática e construir a sua máquina do tempo. Com uma idéia fixa: voltar ao dia 4 de junho de 1976 e explodir o Free Trade Hall, em Manchester, durante o show dos Sex Pistols.

Mas não por horror ao punk. Seus objetivos são nobres, como ele mesmo explica:

“Sem aquele show e seu público não haverá o New Order, nem os Smiths, nem a Haçienda e a Factory, e portanto não haverá o pós-punk inglês. Não haverá os anos 80. E portanto não haverá as festas de volta aos anos 80″.

Lutz é candidato a dois prêmios Nobel. O de Física e o da Paz.

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Dramatis Personæ (27)

Desistiu de ensaiar as Enguias Cantoras de Okinawa quando descobriu que era alérgico a frutos do mar.

(Colaboração de Alessandra

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Rádio Livre 91.50 informa

O rádio sem onda - Convergência digital e novos desafios na radiodifusão O rádio analógico está vivendo hoje um período similar ao que viveu o disco de vinil no começo dos anos 80, quando a indústria começou a planejar como despejaria nas prateleiras os primeiros compact discs. Ainda não está definido qual será o padrão que o sucederá, mas seu fim já vem sendo acertado. As novas tecnologias digitais estão disponíveis e seu potencial ainda não foi sequer avaliado em toda sua extensão. Na melhor das hipóteses, seguindo a atual tendência de convergência de mídias, o rádio será apenas mais uma opção na tela de um telefone celular ou ao alcance de um clique no mouse do computador.

Marcelo Kischinhevsky lança “O rádio sem onda – Convergência digital e novos desafios na radiodifusão” (Editora E-Papers) nesta quinta-feira, 28 de junho, às 19h, na livraria do
Unibanco Arteplex (Praia de Botafogo, 316).

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Grandes coisas

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Eu toda semana compro manteiga e não preciso anunciar a ninguém.

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Biblioteca de Babel (6): O Livro de Gog

“As dores do mundo”, de Schopenhauer? Não. “Werther”, de Goethe? Muito menos. “O apanhador no campo de centeio”, de Salinger? Pura fama. A obra que provocou mais suicídios em toda a história é o “Livro de Gog”, escrito por volta do século IX AC.

Outro título que se pode atribuir ao livro é o de mais poderoso livro sagrado jamais escrito. Todos que o leram ficaram convencidos da sua Verdade; tanto é que, cumprindo a mais importante de suas normas, mataram-se logo após virar a última página.

Isto explica que a religião de Gog seja tão pouco conhecida. E o livro, menos ainda, já que ninguém jamais foi capaz de escrever uma cópia completa. Só existe um exemplar no mundo inteiro, o original em pergaminho.

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Dramatis Personæ (26): Eheru, o Magnífico

Alguns dizem que ele inicou a sua carreira no Grande Circo de Vladivostok, embora não haja provas de sua passagem por lá. Mas, onde quer que tenha aprendido o ofício, tornou-se logo um dos melhores. E abriu seu próprio circo.

Seu número de domador de leões era o gran finale. Crianças e adultos contemplavam, incrédulos, o seu domínio sobre as feras, que chegavam a dançar balé sob seu comando.

Outros domadores tentaram descobrir os segredos da sua técnica. Em vão, pois Eheru, na verdade, nunca fora um domador. Na verdade, não tinha a menor capacidade de lidar com animais. Mas era um brilhante prestidigitador. Com seus truques de ilusionista, era capaz de levar toda a platéia a acreditar que estava vendo uma apresentação de feras amestradas onde nada acontecia de verdade.

Infelizmente, um dia perdeu o controle sobre suas ilusões e uma delas devorou de uma só bocada um menino que estava na primeira fila. Foi o fim de sua carreira e de seu circo. Nunca mais tornou a pisar um picadeiro.

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Bestiário (20): Quiué

Ave inteligente é o Quiué. Tanto que conhece os dias da semana, tem um canto diferente para cada um e nunca se engana.

Os nomes dos dias da semana na língua Naual são onomatopéias dos sete cantos do pássaro: Quiué (domingo), Caw (segunda-feira), Titiri (terça-feira), Ara (quarta-feira), Ueiuei (quinta-feira), Boh (sexta-feira), U-ú (sábado).

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Jam (4): Me diga, dona

(Lennon/McCartney/Faria)

Me diga, dona, cercada de bebês
Como você acerta as contas no fim do mês?
Como é que faz pra pagar o aluguel?
Você sabe que dinheiro não cai do céu.

Na sexta, acaba o último trocado
Domingo não tem nada no fogão
Segunda, arruma o filho pra escola
Que confusão!

Me diga, dona, dando de mamar,
O que vai ter na mesa pro jantar?

Que confusão!

Me diga, dona, na cama sem dormir
Que som no seu ouvido não pára de zumbir

Terça-feira não acaba nunca
Na quarta o jornal não veio não
Na sexta a casa é uma espelunca
Que confusão!

Me diga, dona, cercada de bebês
Como você acerta as contas no fim do mês?

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História Universal da Infâmia (3)

Um traficante de ópio passa oferecendo sua droga a todas as pessoas. Qual é o nome do filme?

Resposta, mais uma vez, nos comentários.

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Dramatis Personæ (25): Paulo e Beth

Ele só falava em alexandrinos; ela dizia tudo em limericks. Mesmo com a divergência que parecia inconciliável, os dois se apaixonaram. E, como qualquer maneira de métrica vale a pena, até decidiram se casar.

A cerimônia foi inesquecível. Em nenhuma outra que se tenha notícia o noivo disse

Prometo ser fiel nas rimas, sejam elas
Ricas, sejam pobres; sempre serão belas

E nem recebeu como resposta

Uma noiva subiu ao altar
E respondeu sem nem hesitar:
“Mas é claro que sim”,
Casando-se assim
Com o noivo que sabia rimar

Algum tempo depois, nasceu o primeiro filho do casal. Que logo começou a balbuciar suas primeiras palavras:

Gu-gu-da-da-dá
Da-dá Gu-gu-dá Gu-gu
Dá-dá Gu-gu-dá

A mãe sorria. O pai chorava. Era um haikai.

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Folhinha (7): Nhã-morawa

Ao contrário do que diz a versão corrente, o 12 de junho não foi escolhido como Dia dos Namorados por ser véspera da festa de Santo Antônio. A tradição é bem mais antiga: vem do tempo dos jesuítas, do período colonial.

Todos sabem como a festa pagã de solstício de verão foi apropriada pelos cristãos e transformou-se no Natal. Com o Dia dos Namorados foi praticamente a mesma coisa. Em 12 de junho os tupis celebravam o Nhã-morawa, uma data especial em que as índias solteiras escolhiam seus maridos. Uma espécie de Dia de Maria Cebola.

Os jesuítas, porém, acharam aquilo muito vergonhoso. Mas não conseguiam combater a tradição. Ao mesmo tempo, as portuguesas vindas para cá (e algumas das suas primeiras filhas brasileiras) começaram a se interessar pela idéia.

Sem outro remédio, os catequistas procuraram ao menos suavizar a atitude “agressiva” das caboclas e fazer de Santo Antônio o verdadeiro responsável pelos matrimônios. Nãoi hesitaram em adaptar boa parte dos feitiços indígenas, para dar origem às simpatias que hoje conhecemos. Até o nome de Dia dos Namorados é uma corruptela do tupi Nhã-morawa.

Isso explica por que aqui o Dia dos Namorados não é celebrado em 14 de fevereiro, como em outros países. E o que só tem no Brasil e não é jabuticaba, como diz a frase atribuída a Sérgio Porto, deve ser besteira.

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Para


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Adão & Eva
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Bess & Porgy
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Severin & Wanda
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Tom & Viv

Alessandra & Marcos

E quem mais quiser assinar.

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Histórias reais (10): As listras do tigre

Descubra qual é o verdadeiro tigre branco

Antigamente o tigre não tinha listras. Seu corpo era inteiro alaranjado.

Naquela época os outros animais foram se queixar ao búfalo, que era o juiz da floresta, que o tigre andava muito feroz e todos os dias comia um deles. O búfalo chamou o acusado e perguntou se era verdade.

O tigre negou. Mas o búfalo, que era protegido de Yama, deus da justiça, e dele tinha recebido o poder de fazer surgir a verdade, ouviu os protestos da assembléia ali reunida e disse:

— Para cada animal que matares, surgirá uma listra negra no teu corpo. Volta daqui a uma lua.

YamaQuando o tigre voltou, as listras cobriam todo o seu corpo. O búfalo censurou seu comportamento e suas mentiras, enquanto todos os outros animais gritavam e apupavam, até que ele se enfureceu e saltou sobre o juiz. Rasgou-lhe a jugular e derrubou-o no solo, morto. Nesse instante, nasceram as listras no seu rosto, as últimas que recebeu.

Yama, enfurecido, determinou que as listras permaneceriam para sempre, de forma que todos os outros animais pudessem ver que o tigre era um assassino. E assim aconteceu.

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Faltam 30 dias

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Jam (3): Balada do castelo

(Para Alessandra, sempre)

Havia um castelo no alto do monte
Com torres de pedra e portões de marfim
Havia um castelo no alto do monte
Se eu contar sua lenda, acreditem em mim

Do alto o rei avistou uma pastora
Mais bela que todas as damas de então
Mandou que a trouxessem ali sem demora
E na frente da corte pediu sua mão

Havia um castelo no alto do monte
Tapetes vermelhos, cortinas carmim
Havia um castelo no alto do monte
Se eu contar sua lenda, acreditem em mim

Porém não contava que a linda plebéia
Fosse moça de um brio maior que a beleza
E pedisse diante de toda a assembléia
Um dote mais rico que o de uma princesa

Havia um castelo no alto do monte
Estátuas de ouro em aléias sem fim
Havia um castelo no alto do monte
Se eu contar sua lenda, acreditem em mim

Pediu um vestido de seda e brocado
Um barril de ouro em pó e um anel de noivado
Um diamante maior que seu punho cerrado
E o rei mandou tudo trazer d’além-mar

Exigiu uma chuva de leite e de mel
Um tratado de paz entre o gato e o lebréu
Uma nuvem no chão e um lago no céu
E o rei mandou tudo providenciar

Havia um castelo no alto do monte
Almofadas de puro veludo e cetim
Havia um castelo no alto do monte
Se eu contar sua lenda, acreditem em mim

No fim quis que o rei lhe entregasse a coroa
O cetro e o trono e virasse plebeu
A corte irritou-se, xingou, censurou-a
Mas ele não hesitou e em tudo cedeu

Havia um castelo no alto do monte
Gárgulas, anjos, dragões e um djinn
Havia um castelo no alto do monte
Se eu contar sua lenda, acreditem em mim

Do alto a rainha avistou um pastor
Com o porte de um rei e os olhos no chão
Mandou que o trouxessem, jurou seu amor
E na frente de todos pediu sua mão

Havia um castelo no alto do monte
Com torres de pedra e portões de marfim
Havia um castelo no alto do monte
Se eu contar sua lenda, acreditem em mim

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Postais do Exílio (15): Gelzid

Há em Gelzid um curioso casarão, maior que todos os outros da cidade e que parece uma colagem de dois edifícios, tamanha é a diferença de arquitetura entre a sua metade esquerda e a direita. E, de fato, originalmente eram duas residências separadas.

Numa das casas viveu em certa época um rapaz; na outra, uma moça. E os dois se apaixonaram para revolta de ambas as famílias, que viviam em pé de guerra.

(Isto foi antes de o Bardo escrever a tragédia dos amantes de Verona; ao que parece, muito antes até de Píramo e Tisbe trocarem confidências pelo buraco de um muro.)

Como não poderia deixar de ser, porém, só a morte dos dois foi capaz de fazer a paz e reconciliar as suas famílias, que decidiram então derrubar as paredes que separavam as duas casas e unificar a propriedade. E uma nova porta principal foi aberta, bem na junção entre os edifícios.

A porta, que se abre em par, tem de cada lado esculpido em relevo o rosto de perfil de um dos amantes. Assim, durante o dia, quando a casa está aberta, eles ficam separados. Só à noite eles podem se beijar, da mesma forma que a escuridão da morte precisou fechar seus olhos para que finalmente se unissem.

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Alarcão

'O Banquete, página 2''O Banquete, página 3'A Alessandra diz que a gente só tem amigo genial. E o Renato Alarcão, que ontem escreveu no seu blog um texto lembrando nossos tempos de colégio, é um dos maiores exemplos. Eu particularmente me orgulho de termos sido parceiros de crime em coisas como “O Banquete” (da já na época constrangedora “PhQ”, 1991), se não me engano a estréia dos dois em banca. O primeiro livro em dupla é questão de tempo.

E como se não bastasse o talento, Renato é daqueles amigos com a rara capacidade de dar um puxão-de-orelhas na hora certa.

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Bestiário (19): Cavalo da Abissínia

Flamínio, na sua História Natural, conta que os cavalos selvagens da Abissínia “tinham a cabeça onde deveria estar o traseiro, e o traseiro no lugar da cabeça”. Além disso, comiam pelo ânus e defecavam pela boca; corriam perfeitamente de costas e andavam muito mal para a frente; sua crina crescia como uma causa, e sua cauda curta, colada à longa anca, mais parecia uma crina. Além disso, “os abissínios montavam-nos de costas, de modo que só um grande conhecedor de animais podia perceber que não eram cavalos comuns”.

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Meme

Taí, Telinha.

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Por aqui

Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.