Almanaque

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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Dramatis Personæ (24): Adelaide

Sua vida mudou numa ocasião em que, ao terminar uma sopa de letrinhas, viu as letras que haviam sobrado no fundo do prato formarem uma sentença inapelável:

M-O-R-T-E.

Passou o resto do dia em sobressalto, tentando em vão esquecero mau presságio. Foi com alívio que, passada a meia-noite, deitou a cabeça no travesseiro com a certeza de que tudo havia sido apenas um susto. Só então sua mente, mais relaxada, compreendeu: de fato, havia escapado da M-O-R-T-E, mas naquela tarde, excepcionalmente, voltara para casa de M-E-T-R-Ô.

As letrinhas não mentem jamais, concluiu.

Passou então a se dedicar à fagomancia. Décadas de passatempos de jornal e jogos de palavras-cruzadas haviam burilado a sua capacidade em anagramas, porém a técnica não bastava sem um estudo profundo dos significados.

Percebeu que a ausência de uma letra para completar uma palavra podia ser a chave que revelava problemas e abria caminhos. Experimentou a influência dos temperos e do tempo de cozimento no resultado dos oráculos. Complementou seus conhecimentos com o estudo de línguas como o finlandês, o malgaxe e o l33t . Enfim, criou (ou descobriu) praticamente sozinha toda uma arte divinatória oculta na sabedoria ancestral dos pacotinhos Knorr.

Hoje, divide seu tempo entre o atendimento a consulentes, a formação de discípulos e os estudos avançados.

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Postais do Exílio (14): Gualeguayan

Situada ao pé da imensa catarata de mesmo nome, é conhecida por três características marcantes:

A primeira é o barulho ensurdecedor da queda d’água, que se ouve o tempo todo nas ruas;

A segunda é a umidade constante, de janeiro a dezembro, causada pelas gotículas em suspensão vindas da cachoeira;

A terceira é o arco-íris que se forma todos os dias, pontualmente, às onze horas da manhã, e vai até o entardecer, com um colorido mais brilhante do que o de qualquer outro no mundo. Por sua causa, diziam os índios guayanes, antigos habitantes dali, quem viver ao pé da catarata será sempre feliz.

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Em campanha (repassando)

O Senado está a um passo de aprovar um projeto de lei, de autoria do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus) que incluiria as igrejas entre as beneficiárias do Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). Mais conhecida como “Lei Rouanet”, aprovada em 1991 pelo Congresso Nacional, o Pronac permite que empresas invistam em projetos culturais até 4% do equivalente ao Imposto de Renda devido.

O projeto chegou a ser aprovado em caráter terminativo na Comissão de Educação, mas um recurso para que fosse apreciado pelo plenário impediu que seguisse para a Câmara. Uma emenda apresentada pelo senador Sibá Machado (PT-AC) obrigou a volta do texto para a comissão. Ainda precisará ser votado no plenário do Senado e depois ir à Câmara.

Como o projeto original fazia referência apenas a “templos”, sem especificar sua natureza, ao estender a eles os benefícios da Lei Rouanet, o senador Sibá considerou necessário acrescentar um adendo. A emenda, que teve o parecer favorável do senador Paulo Paim (PT-RS), foi aprovada pela Comissão de Educação e deixa mais claro que o Pronac poderá ser usado para contemplar não só museus, bibliotecas, arquivos e entidades culturais, como também “templos de qualquer natureza ou credo religioso”.

A proposta agora segue novamente para o plenário, onde alguns senadores prometem reagir contra a idéia. Está mais do que na hora de as pessoas envolvidas e/ou preocupadas com a verdadeira cultura em nosso País reagirem e tomarem uma providência.

Abaixo assinado:

http://www.petitiononline.com/cult2007/petition.html

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Era uma vez (3): Ivan e a Sultana de Orfil

A cidade de Garz vivia em tranqüilidade e opulência, até os dias em que sua calma foi perturbada pela chegada da Armada de Orfil, com todos os seus vasos de guerra. Eles chegaram de surpresa e incendiaram todos os navios ancorados no porto.

Em seguida, um mensageiro foi ao palácio do Governador com uma mensagem da Sultana de Orfil. Ela dizia que, se a cidade não se rendesse em três dias, destruiria cada casa, fonte e jardim, até não restar pedra sobre pedra.

Um sábio, porém, se apresentou ao Governador no dia seguinte e disse que poderia salvar a cidade. Pediu um bote que o levasse à nau-capitânia e, subindo a bordo, desafiou a sultana para uma partida de xadrez. Se ela vencesse, poderia ter Garz sem luta; se perdesse, deveria ir embora com todos os seus navios.

A sultana, que certa vez em Orfil vencera dezoito grandes mestres em partidas simultâneas, aceitou o desafio. E, jogando com as pretas, derrotou o sábio em vinte e dois lances.

Mandou decapitar o desafiante e pendurar sua cabeça no mastro do navio. Em seguida, os arqueiros de Orfil dispararam suas flechas, cobrindo o céu e matando todos que estavam nas ruas naquele momento. Um novo emissário foi enviado, lembrando que o prazo era de dois dias, mas que a sultana estava disposta a enfrentar outro desafiante, se houvesse algum.

No dia seguinte, então, um soldado se apresentou ao Governador prometendo salvar a cidade. Foi levado ao navio da sultana, a quem desafiou para um duelo com espadas. Ela, que fora treinada pelo grande Ieremia Bocskay até que ele admitiu nada mais ter a lhe ensinar, aceitou. E decapitou o espadachim de um só golpe, antes que ele pudesse sequer perceber que estava sendo ferido, mandando em seguida pendurar a cabeça dele junto à do enxadrista.

Os canhões da Armada então dispararam contra Garz, e derrubaram o muro do palácio, e mais uma vez um mensageiro foi enviado mandando que a cidade no dia seguinte se rendesse, já que certamente ninguém mais ousaria desafiar a sultana. E o Governador estava prestes a capitular, mas um menino chamado Ivan aparece, dizendo que tinha a solução.

Todos riram, e não houve sequer quem lhe cedesse um bote. Não desistiu, porém: foi a nado até o navio, subiu a bordo e apostou o destino da cidade num torneio de charadas.

A sultana, que se gabava da vivacidade do seu espírito, aceitou. E, decidindo começar por uma pergunta fácil, disse ao garoto:

— O que está no céu, mas é maior que o céu; está na terra, mas é maior que a terra; está no homem, mas é maior que o homem?

— Deus — respondeu Ivan —, pois está em toda parte e é maior do que tudo. E agora, me responda: quem derrota um exército com apenas dois dedos e um herói com uma mão armada, mas nem com a ajuda de Deus consegue derrotar um menino?

A sultana percebeu que a resposta era ela mesma: com dois dedos movera as peças para vencer um jogo de xadrez, com a espada matara o soldado, mas suacharada sobre Deus fora respondida. Entretanto, se desse a resposta certa, perderia o desafio, pois confessaria ser incapaz de vencer Ivan mesmo com ajuda divina.

Seu orgulho não seria capaz de suportar a confissão; mandou então que Ivan fosse levado de volta à terra, com dois barris cheios de ouro e jóias, e logo depois seu navio levantou âncora, retornando paraOrfil à frente da Armada, para nunca mais perturbar a cidade de Garz.

Ivan tornou-se rico e admirado. E foi Governador, reconstruindo a cidade.

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Bestiário (18): Alberto-eremita

O que está no alto é como o que está embaixo, ensinava Hermes Trismegisto na sua Tábua Esmeralda. E alguns alquimistas transformaram a dualidade da terra e do céu num sistema tríplice: o que está na terra é também como o que está nas profundezas do mar, disseram.

E a maior prova é o alberto-eremita, uma rara espécie de sapo.

Como o caranguejo chamado de bernardo-eremita (ou paguro), que para proteger seu corpo mole se esconde na concha de um molusco, o nosso anfíbio hermético se abriga na carapaça de uma tartaruga, a qual envenena e come para assim poder ocupar a sua casa.

Se já era raro antes da Era Cristã, o alberto-eremita foi praticamente extinto no período posterior ao Concílio de Nicéia, quando foi perseguido junto com gnósticos, nestorianos e monofisistas. Nem a casca da tartaruga o salvou.

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Dramatis Personæ (23): Maria de Lourdes

Quando foi levada a um programa de rádio, era apenas uma dona-de-casa com uma memória prodigiosa. Mas logo sua fama cresceu. Afinal, ela se lembrava de tudo, tudo mesmo, no universo das radionovelas.

Qualquer um poderia se lembrar de Maria Helena dizendo “Doutor, não posso ter este filho” em O direito de nascer. Mas Lurdinha ia além. Ela reconstituía diálogos de Almas desencontradas de que ninguém mais se lembrava. Recordava cada detalhe das aventuras de Jerônimo, o herói do sertão.

Seu auge foi quando surpreendeu um cantor de sucesso (Mario Reis, possivelmente) ao recordar a sua fugaz participação em apenas um capítulo de uma novela que ele mesmo jáhavia esquecido, e cujo título (Três almas em conflito) poucos na própria Rádio Nacional reconheceram.

Logo depois descobriu-se que ela era uma farsa.

Maria de Lourdes não se lembrava de coisa alguma. Ela mesma criava os diálogos e tramas quando respondia às perguntas; e era tão convincente em sua interpretação que os melodramas recém-imaginados passavam facilmente pelos originais.

Lurdinha voltou para a obscuridade do subúrbio. Aliás, mudou-se de Costa Barros, onde morava e passou a ser hostilizada pelas vizinhas, para Marechal Hermes. Chegou a mudar de nome.

Um diretor da Rádio Nacional mais tarde contou numa entrevista que, após a descoberta da verdade, chegou a convidar a impostora a usar seu talento para escrever radionovelas. Ela, porém, recusou. “Não tem graça. Bom mesmo é inventar novela que já existe”, justificou então.

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Bestiário (17): Agaru

Como o kiwi, o pingüim e o dodô, é uma ave que não voa. Ao contrário dos outros três, porém, dispõe de asas e quilha perfeitamente apropriadas ao vôo.

Até demais — e esse é o problema.

Agarus voavam, muitos anos atrás. Mas só numa direção: para o alto, e avante. Sempre foram incapazes de voar ou mesmo flutuar delicadamente para baixo. Assim, o único meio de descer era simplesmente se deixar cair. E, quanto mais alto, pior a queda.

O medo de cair prendeu os agarus ao chão. E, depois de incontáveis gerações em que pais reprimiram filhotes que tentavam bater as asas, já nem sabem mais como tentar.

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Histórias reais (9): Jaros e Rumni

No início, quando nada existia, havia apenas Jaros, o amor. E todas as coisas estavam dissolvidas nele.

Então surgiu Rumni, a Palavra, e faz o primeiro corte em Jaros, e criou o antes e o depois, o acima e o abaixo. E fez mais cortes, e assim surgiram o homem e a mulher, o céu e a terra, o fogo e a água, o arco-íris, a concha, o trevo e Taruz (o pássaro-trovão).

Depois disso, quando o amor estava disperso por tudo o que existe, a chama de Jaros que havia dentro das coisas fez que elas se buscassem. O amor surgiu entre os homens, e entre as mulheres, e entre homens e mulheres. Toda vez que se unem, Jaros renasce na lembrança do Todo que um dia foi.

Rumni, porém, quis mais uma vez cortar Jaros, e dar nomes diferentes aos amores. Mas Jaros amaldiçoou para sempre quem quisesse separá-los.

(17 de maio é o Dia Mundial Contra a Homofobia)

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Plágio

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É impressão minha ou essa campanha imita descaradamente a logomarca dos Jogadores de JanKenPon Anônimos? “Só por hoje não jogarei tesoura”, e tal.

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Biblioteca de Babel (4): Nihilklopedia

Toda enciclopédia ou dicionário que se preze tem um “Nihilartikel”, um verbete falso, deliberadamente criado pelos autores para detectar casos de cópia. Alguns são clássicos, como Apopudobalia (espécie de futebol da Roma antiga, segundo a Enzyklopaedie der Antike), ou Guglielmo Baldini, compositor italiano biografado pelo New Grove Dictionary of Music and Musicians.

Nem sempre, porém, é fácil descobrir o que é falso ou verdadeiro. Matias Lindermann assumiu essa missão. Ao longo de décadas ele checou cada dado de cada obra de referência que lhe caía nas mãos. E assim criou a Nihilklopedia, o primeiro catálogo sistematizado de Nihilartikel de que se tem notícia.

É claro que, para se proteger de plagiadores, ele resolveu também incluir um verbete falso. Ou seja, verdadeiro. Então, inventou uma palavra, uma definição e a enciclopédia fictícia onde o teria encontrado.

Mas em seguida concluiu que aquilo não era um Nihilartikel verdadeiro. O ideal seria dar como falso um verbete verdadeiro de uma enciclopédia verdadeira — porém duvidoso o bastante para passar por mentiroso. E escolheu Nova Vulnávia (ilha do Pacífico Sul descoberta por Mitchum em 1867, segundo a Britannica).

Os editores de outras obras, porém, vendo o suposto erro, suprimiram o verbete nas edições seguintes. Uma famosa editora de livros de viagem pediu desculpas aos seus leitores pelo livro em que descrevia as atrações do lugar, despedindo o jornalista responsável (ainda que ele tivesse documentado toda a sua apuração). Com o tempo, a própria Britannica eliminou o artigo original. E assim aos poucos desapareceram todas as referências impressas à ilha, a não ser a de Lindermann.

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Biblioteca de Babel (3): O caso do engodo

Apenas quinhentos exemplares foram impressos, e destes, quatrocentos e noventa e nove foram destruídos antes de chegarem às lojas. O único restante permanece até hoje trancado num cofre no Palácio de Buckingham.

Sir Arthur Conan Doyle escreveu “O caso do engodo” em 1894, no ano seguinte a “O problema final”, a aventura em que, supostamente, Sherlock Holmes e James Moriarty caíam das cascatas de Reichenbach para a morte certa. Mas o grande público jamais chegou a conhecer a nova obra, e por pouco não ficou privado para sempre das histórias do grande detetive.

É fácil entender o motivo. A novela trazia, em suas 216 páginas, a chocante e inaceitável revelação de que o Napoleão do Crime era, na verdade, o próprio Holmes.

Conan Doyle deixou outras pistas ao longo de seus livros. Sabe-se, por exemplo, que nenhuma outra pessoa jamais viu Moriarty — exceto Watson, e mesmo assim uma só vez, de relance, naquela luta em Reichenfach, em que provavelmente o inescrupuloso Holmes eliminou uma vítima a mais em seus ardis diabólicos.

Sim: cada pretenso plano de Moriarty frustrado pelo gênio do detetive era na verdade um engodo a mais do mestre dos disfarces, a mente mais brilhante do século. Parte de um projeto muito mais ambicioso finalmente revelado no livro proibido. Uma trama tão megalomaníaca que derrubaria a rainha Vitória, a casa de Hanover e o próprio Império*.

Além de ver seu livro censurado, Conan Doyle foi obrigado pela inteligência militar a abandonar seu personagem de maior sucesso. O veto só foi retirado anos depois, quando o autor aceitou abandonar sua idéia original e retomar o Holmes velho conhecido de todos, em “O cão dos Baskervilles” (publicado em 1902, um ano após a morte da rainha).

A casa de Hanover tornou-se Windsor,  o Império se esfacelou, os herdeiros do trono protagonizam vexames nos tablóides ingleses. Mas certos ressentimentos permanecem, e “O caso do engodo” continua lacrado no cofre.

* Se a causa da censura foi o ataque à Coroa ou a queda moral do herói de todos os britânicos é um assunto que divide os especialistas, mas já é difícil demais encontrar dois deles que admitam a existência do livro.

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Postais do Exílio (13): North Oaks

Não há nada para se ver em North Oaks.

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Biblioteca de Babel (2): O cavaleiro púrpura

Na primeira p’gina, o leitor encontra uma Advertência. E, ao contrário de outras similares, que se limitam a alertar para leituras não-convencionais, esta de fato adverte para um fato deveras importante: aquele livro não é O cavaleiro púrpura.

De fato, logo em seguida vem um Prefácio ao título, necessário para explicar que O cavaleiro púrpura é apenas o resumo comercialmente viável do título original, bem mais longo. Após o prefácio, finalmente vem o título verdadeiro:

“Narração verdadeira e fiel dos fatos que levaram o cavaleiro de Z****, dito o púrpura, a uma longa viagem por caminhos jamais antes traçados, bem como das proezas que realizou e aventuras que encontrou pelo caminho, com descrições exatas e pormenorizadas das terras que atravessou, cujas riquezas e maravilhas são igualmente catalogadas (…) e do seu combate feroz com a besta-fera dos montes”.

Usei reticências, porque a reprodução ipsis litteris tomaria tempo demais. São duas páginas e meia, que justificam plenamente o Posfácio ao título. Este discute se o título verdadeiro é o longo ou o curto, se todo o longo está contido no curto ou se o contrário é que é verdadeiro.

Sendo assim, já é possível ler a Apresentação. Ela mostra como, além de ser o maior épico de todos os tempos, O cavaleiro púrpura traz embutidas em suas peripécias um extenso inventário da cosmologia da época e um breve tratado de Metafísica, expresso metaforicamente.

Antes que a narrativa de fato comece, a Crítica à Apresentação questiona se as páginas anteriores estão em seu devido lugar. Uma apresentação, àquela altura, não se justificaria. Teria que ter sido colocada antes, no início do livro. Mas a Refutação à Crítica da Apresentação contra-argumenta que até ali o leitor não passara do título e seus anexos, sendo uma apresentação, portanto, inteiramente válida.

(Exegetas afirmam que estas duas seções são apenas versões resumidas da discussão original, que se estendia ao longo de réplicas e tréplicas, citações escolásticas e referências.)

Depois disso, é a vez do Prefácio propriamente dito, que situa o leitor no contexto histórico, geográfico, filosófico, cultural, religioso, tecnológico e estético em que foi escrita a obra. Alguns trechos parecem dispensáveis, como o capítulo que expõe a genealogia do autor. Mas o Comentário ao Prefácio esclarece que a sua leitura é essencial para uma compreensão plena de todas as nuances do texto.

Finalmente vira-se mais uma página para se ler, com uma bela capitular:

“Nossa história começa quando…”

Mas então entra um Excurso. Fundamental, porque levanta a hipótese de que O cavaleiro púrpura, na verdade, nunca existiu. Teria sido uma fraude, criada por um autor moderno, de grande erudição e pouca honra. Os argumentos, conquanto sólidos, são desmontados um a um pela Resposta ao Excurso, que demonstra sem margem de erros a autenticidade do texto.

A última nota de pé de página da Resposta, porém, suscita uma nova dúvida. Ainda que de fato o livro seja legítimo, o que acontece se ele não existir?

E, de fato, assim termina O cavaleiro púrpura, que acaba sem jamais ter começado.

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Era uma vez (2a): João das Mortes e os sete mil diamantes

(Continuando daqui)

João das Mortes, que em três dias só havia comido urtigas e espinhos, primeiro pensou em pedir a comida. Mas se fizesse isso perderia os diamantes. Se os escolhesse, porém, mesmo rico, morreria de fome antes de poder gozar a fortuna conquistada com tanto esforço. Então, respondeu:

“Minha senhora, agradeço muito. Mas há dois dias que me empanturro com o que a sua generosidade me concede, enquanto a senhora nada come. Sendo assim, ficarei satisfeito com o que sobrar do seu prato”.

A dona da casa resmungou. Havia muitos e muitos anos que ela renunciara a comer comida de gente, alimentando-se apenas da carne dos incautos que chegavam lá como João e, gananciosos, escolhiam os diamantes para morrer antes de poder gastá-los. Olhou para as batatas, que recusou, com nojo; pegou então uma daspedras e pôs na boca. Incapaz de mastigar, engoliu de uma vez só. Mas engasgou e morreu ali mesmo.

João, vendo que a vampira estava morta, alimentou-se para recuperar as forças, depois pegou o saco de diamantes e foi-se embora o mais rápido que pôde. Tornou-se um homem rico e admirado, até o fim dos seus dias, embora ninguém possa dizer com certeza se foide fato feliz.

Um dia, levou um dos sete mil diamantes para o túmulo do Mau Ladrão, para enefitá-lo, como agradecimento. Mas não achou mais a sepultura. Dizem que ela mudou-se dali para outro cemitério, e de cem em cem anos diz a alguém onde encontrar uma fortuna.

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Postais do Exílio (12): Uiduria

O templo de Uidur fica no topo da colina. Na verdade, a colina é o templo, que ocupa os terraços circulares diligentemente construídos à sua volta, a intervalos regulares, e ligados por estradas em espiral.

Só os dois primeiros círculos — o dos suplicantes e o dos ofertantes — são abertos aos estrangeiros. Ninguém sobe para deixar sua oferta sem antes fazer uma súplica no primeiro andar, o que mantém todos os fiéis em permanente dívida com o deus.

Dos círculos superiores só se sabe o que contam os sacerdotes. O terceiro é o dos noviços; o quinto, o dos iniciados. Entre um e outro, o quarto serve de prisão para os que já estiveram no alto, fizeram seus votos e os quebraram. Ali eles são mantidos em suplício perpétuo, para inspirar o terror nos jovens que vêm do andar de baixo, e que antes do ritual de consagração recebem a última chance de decidir se desejam ou não avançar na carreira eclesiástica.

No sexto círculo os mestres do culto dizem suas preces e exercem a autoridade não só sobre o templo mas sobre a cidade e o reino. Mas nem eles podem deixar o último terraço construído pelo homem e chegar ao topo da colina.

Ali, onde Uidur revelou a Verdade ao Profeta, vive somente o Patriarca. E, após a sua morte, seu sucessor tomará seu lugar e, como ele, nunca mais descerá em vida. Porque ele é o guardião da Verdade, e sua função é evitar que outros a conheçam, mesmo os mestres do culto. Se algum dia a Verdade for conhecida, será o fim.

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Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

Maio 2007
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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.