A cidade de Garz vivia em tranqüilidade e opulência, até os dias em que sua calma foi perturbada pela chegada da Armada de Orfil, com todos os seus vasos de guerra. Eles chegaram de surpresa e incendiaram todos os navios ancorados no porto.
Em seguida, um mensageiro foi ao palácio do Governador com uma mensagem da Sultana de Orfil. Ela dizia que, se a cidade não se rendesse em três dias, destruiria cada casa, fonte e jardim, até não restar pedra sobre pedra.
Um sábio, porém, se apresentou ao Governador no dia seguinte e disse que poderia salvar a cidade. Pediu um bote que o levasse à nau-capitânia e, subindo a bordo, desafiou a sultana para uma partida de xadrez. Se ela vencesse, poderia ter Garz sem luta; se perdesse, deveria ir embora com todos os seus navios.
A sultana, que certa vez em Orfil vencera dezoito grandes mestres em partidas simultâneas, aceitou o desafio. E, jogando com as pretas, derrotou o sábio em vinte e dois lances.
Mandou decapitar o desafiante e pendurar sua cabeça no mastro do navio. Em seguida, os arqueiros de Orfil dispararam suas flechas, cobrindo o céu e matando todos que estavam nas ruas naquele momento. Um novo emissário foi enviado, lembrando que o prazo era de dois dias, mas que a sultana estava disposta a enfrentar outro desafiante, se houvesse algum.
No dia seguinte, então, um soldado se apresentou ao Governador prometendo salvar a cidade. Foi levado ao navio da sultana, a quem desafiou para um duelo com espadas. Ela, que fora treinada pelo grande Ieremia Bocskay até que ele admitiu nada mais ter a lhe ensinar, aceitou. E decapitou o espadachim de um só golpe, antes que ele pudesse sequer perceber que estava sendo ferido, mandando em seguida pendurar a cabeça dele junto à do enxadrista.
Os canhões da Armada então dispararam contra Garz, e derrubaram o muro do palácio, e mais uma vez um mensageiro foi enviado mandando que a cidade no dia seguinte se rendesse, já que certamente ninguém mais ousaria desafiar a sultana. E o Governador estava prestes a capitular, mas um menino chamado Ivan aparece, dizendo que tinha a solução.
Todos riram, e não houve sequer quem lhe cedesse um bote. Não desistiu, porém: foi a nado até o navio, subiu a bordo e apostou o destino da cidade num torneio de charadas.
A sultana, que se gabava da vivacidade do seu espírito, aceitou. E, decidindo começar por uma pergunta fácil, disse ao garoto:
— O que está no céu, mas é maior que o céu; está na terra, mas é maior que a terra; está no homem, mas é maior que o homem?
— Deus — respondeu Ivan —, pois está em toda parte e é maior do que tudo. E agora, me responda: quem derrota um exército com apenas dois dedos e um herói com uma mão armada, mas nem com a ajuda de Deus consegue derrotar um menino?
A sultana percebeu que a resposta era ela mesma: com dois dedos movera as peças para vencer um jogo de xadrez, com a espada matara o soldado, mas suacharada sobre Deus fora respondida. Entretanto, se desse a resposta certa, perderia o desafio, pois confessaria ser incapaz de vencer Ivan mesmo com ajuda divina.
Seu orgulho não seria capaz de suportar a confissão; mandou então que Ivan fosse levado de volta à terra, com dois barris cheios de ouro e jóias, e logo depois seu navio levantou âncora, retornando paraOrfil à frente da Armada, para nunca mais perturbar a cidade de Garz.
Ivan tornou-se rico e admirado. E foi Governador, reconstruindo a cidade.
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