Almanaque

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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Dramatis Personæ (22): Ieremia Bocskay

Em sua época, foi um dos maiores espadachins da Europa. Sua habilidade com a espada rivalizava com a de mestres como o toledano Iñigo Montoya, o copta Averkyie Skila e o gascão Charles de Batz-Castelmore. Sua reputação o precedia — e foi a sua ruína.

Moldavos, valáquios,suábios e magiares contratavam seus serviços. Tornou-se o mercenário mais bem pago do Leste Europeu, porque bastava a notícia de que participaria de um combate para que o inimigo se rendesse, tamanha era a reputação que o precedia.

Um dia sua reputação o precedeu numa curva do caminho. E deu-lhe a estocada mais perfeita já vista na história da esgrima.

Nunca mais um espadachim permitiu que sua reputação crescesse tanto.

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Era uma vez (2): João das Mortes e os sete mil diamantes

Era uma vez um coveiro, que todos conheciam como João das Mortes. Um dia, cuidando do cemitério, ele estava limpando uma tumba tão velha que nem mais se via um nome na lápide, quando ouviu uma voz. Prestando atenção, notou que a voz vinha de baixo da terra, e falava com ele.

Ali estava enterrado o Mau Ladrão, que zombou de Cristo na cruz. Para expiar sua culpa, ele a cada cem anos devia ajudar alguém. E então revelou a João que num lugar muito longe dali vivia uma pobre mulher, que no entanto tinha enterrado em seu terreno um saco com sete mil diamantes.

João agradeceu e pegou a estrada, seguindo as indicações da voz. Depois de muito caminhar, encontrou uma casa conforme a descrição que tinha ouvido, cercada de espinheiros e urtigas. Bateu na porta e se ofereceu para trabalhar ali como jardineiro.

“Sou pobre e não tenho como pagar”, disse a mulher.

“Viverei do que a terra me der”, ele respondeu.

Ela aceitou. E no primeiro dia mandou que João das Mortes limpasse toda a urtiga que havia coberto a frente da casa. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, ficou com a pele toda ardida, mas à noite o terreno estava limpo.

Na hora do jantar, a mulher pegou um punhado da urtiga que havia sido capinada e ofereceu num prato. João aceitou, comeu tudo sem reclamar e dormiu.

No segundo dia, a patroa mandou que João limpasse todos os espinheiros que haviam coberto os fundos da casa. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, ficou com a pele toda arranhada, mas à noite o terreno estava limpo.

Na hora do jantar, ela pegou um punhado dos espinhos que haviam sido arrancados e ofereceu num prato. João aceitou, comeu tudo sem reclamar e dormiu.

No terceiro dia, mandou que João preparasse a terra, para plantar um jardim. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, mas à noite o terreno estava preparado. E, enquanto revolvia o solo, encontrou na frente da casa um bom bocado de tubérculos e raízes — batatas, inhames, carás, cenouras e batatas-doces — que amontoou num canto. E, nos fundos, desenterrou um saco fechado, que deixou junto dos tubérculos.

Na hora do jantar, a mulher cozinhou os vegetais e ofereceu num prato. Depois abriu o saco que havia sido desenterrado, tirou dele um punhado de diamantes e com eles encheu outro prato, dizendo a João, que em três dias só havia comido urtigas e espinhos, que ele devia escolher seu pagamento: o monte de hortaliças ou o saco de pedras preciosas.

E a escolha do coveiro nós ficaremos sabendo na próxima semana.

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Bestiário (16): Bicho-planta

Procura um terreno adequado e, quando encontra, seus muitos pés se enterram no solo, agarrando-se fixamente e formando uma base para a sua sustentação. O corpo se estica, ereto. E as dezenas de bocas verdes se abrem.

Agora é só esperar a chegada dos insetos.

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Dramatis Personæ (21): Nerval

Depois de uma vida inteira consagrada à Filatelia Comparada, ele lamenta apenas que tão poucas escolas de segundo grau incluam a disciplina em seu currículo.

Arquivado como:Dramatis Personæ

Coquetel

How to make a Marcos
Ingredients:1 part intelligence

5 parts humour

1 part beauty

Method:
Stir together in a glass tumbler with a salted rim. Top it off with a sprinkle of emotion and enjoy!

 

Personality cocktail

From Go-Quiz.com

Só uma parte de beleza? Receita errada.

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Biblioteca de Babel (1): Espirais

O romance de estréia de Antonio Villanova começa com um capítulo de uma singeleza desconcertante, infantil, chegando à beira do ultraje. Mas já no segundo ele começa a abandonar a simplicidade inicial. E a cada página a trama se adensa na mesma medida em que a escritura vai ficando cada vez mais complexa.

Na página 96, o autor começa a inventar palavras.

Os leitores habituados a Joyce e Rosa enfrentam galhardamente os capítulos seguintes, ainda que depois da página 143 a pontuação, já escassa desde o capítulo anterior, desapareça por completo. O problema maior é na terceira parte, quando o abandono das flexões verbais embaralha ainda mais os deslocamentos narrativos entre presente, passado e futuro.

Na página 238, surgem os primeiros espaços em branco apagando trechos importantes de diálogo, enquanto outros são simplesmente subsitituídos por interferência, ao mesmo tempo que o protagonista enfrenta sua mais profunda crise de identidade.

A última palavra (?) do romance é decothrefnningâcmkcesurieodwopjdculiiiihr.

Arquivado como:Biblioteca de Babel

Postais do Exílio (11): Las Guaynas

Afastada da rua principal, na beira do mar, fica a casa do poeta.

Na verdade, o poeta passou a maior parte da sua vida bem longe, na capital, onde escreveu todos os seus livros. Não foi naquele casebre que ele rascunhou seus primeiros versos de adolescente. Não foi ali que ele desenvolveu sua sensibilidade, no contato com a natureza e com a gente simples do campo. Não foi sequer o lugar onde aprendeu a ler e descobriu o fascínio da palavra.  Mesmo assim é a casa do poeta.

Talvez o poeta nunca tenha existido. Mesmo assim, em Las Guaynas fica a casa do poeta.

Arquivado como:Postais do Exílio

Bestiário (15): Mosca Tse-tse-tse-tsé

Mutação ou variante transgênica da mosca tse-tsé comum, sua picada transmite uma doença do sono duas vezes mais forte, fazendo suas vítimas dormirem duas vezes mais, num sono duas vezes mais profundo.

Ataca principalmente às segundas-feiras de manhã.

Arquivado como:Bestiário

Em campanha

O texto original, de Max Spencer-Dohner, faz referências aos “valores comuns da União Européia”, por isso optei por uma adaptação:

“Exmo Sr Embaixador da Polônia,

Ciente do árduo percurso do Povo do seu país rumo a uma Democracia expurgada de totalitarismos como os que historicamente se abateram sobre a Polônia, é com genuína inquietação que assisto à implementação de medidas governativas tendentes a instaurar um clima de desrespeito pelos mais basilares Direitos Humanos. As soluções propugnadas pelo executivo de Varsóvia, ao terem como consequência o desrespeito pela liberdade de não prossecução de um dado credo, a perseguição de minorias sexuais e modelos familiares atípicos traduzem um desrespeito aos direitos humanos.

Ciente que o Povo polaco, como outrora, saberá levantar-se contra a instauração da intolerância e do desrespeito pela dignidade humana, lavro o presente protesto.”

Escolha aqui para quem mandar o seu protesto.

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Postais do Exílio (10): Ruínas de Kamalakan

Kamalakan foi a maior cidade-monumento do Oriente.

Todos os seus reis foram arquitetos. Quando um deles morria, o sucessor era escolhido pelos membros do Colégio de Arquitetura: o eleito seria aquele que apresentasse o melhor projeto de um novo monumento para a cidade-estado.

Daor erigiu um obelisco; Anaor, um arco do triunfo; Ecleo, um colosso; Darissa I, uma pirâmide, que sua filha Darissa II completou com uma esfinge guardiã; Gazul, uma torre de onde caía uma cascata permanente; Erena, um templo dedicado aos antepassados; Dão, um palácio com portas de bronze.

No dia em que os portões foram colocados em seus gonzos, as tropas de Sargão I da Acádia chegaram. E arrasaram palácio, templo, torre, esfinge, pirâmide, colosso, arco e obelisco.

O colégio de arquitetos, ou o que sobrou deles, decidiu que as ruínas eram a mais perfeita obra jamais criada em Kamalakan, devendo permanecer como estavam por toda a eternidade. Então, proclamaram Sargão como seu último rei.

Nunca mais outro monumento foi erguido sobre a cidade arrasada.

Arquivado como:Postais do Exílio

Hoje

Aceita tudo o que eu sou.
Perdoa tudo o que eu não sou.
Obrigado pelo que você é e pelo que você não é.

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Dramatis Personæ (20): Geraldo

Chega no bar e pede uma cerveja. Depois outra mais… mais outra… enfim dezenas, como no poema das pombas.

Lá pelas tantas, sozinho na mesa, lê o rótulo da garrafa. Cambaleia até o próximo telefone e disca para o SAC da cervejaria.

— Boa noite, esta conversa vai estar sendo gravada.

— Você é beu abigo?

— O senhor pode estar registrando uma solicitação de amizade.

— Bô, gara, dij gue vozê é beu abigo…

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Bestiário (14): O relâmpago

No alto curso do Yang-Tsé, acreditava-se que o céu era povoado de criaturas. Quando chovia, suas casas se desmanchavam. E, assim, algumas delas caíam lá de cima — e isso era o relâmpago. O grito de horror que davam diante da morte iminente era o trovão.

Às vezes, caíam relâmpagos sem que houvesse chuva. Isto porque as criaturas celestes, envergonhadas poralguma desonra, cometiam suicídio.

Foi assim que o homem aprendeu a se matar.

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Folhinha (6): Quarta-Feira de Trevas

Segundo os evangelhos de Mateus e Marcos*, na véspera da última ceia Jesus foi à casa de Simão, o leproso, onde uma mulher lavou seus pés com bálsamo de nardo, enxugando-os com seus cabelos — para desespero de Judas Iscariotes, que reclamou do desperdício. Jesus, porém, disse que a mulher estava já preparando seu corpo para a sepultura.

Cristãs alitorianas recordavam a data perfumando seus cabelos com as essências mais caras que tivessem em suas casas, preferencialmente nardo. Muitas guardavam dinheiro o ano inteiro para comprar o melhor perfume que pudessem no dia santo.

Na Turquia e Armênia sassânidas, onde a seita se refugiou após a condenação pelo concílio de Nicéia, o hábito se fundiu com antigos ritos de prostituição sagrada. As alitorianas iam às ruas nesta noite e usavam o que obtivessem pelos seus serviços para comprar o nardo.

O costume deu origem à crença, não sustentada pelos evangelhos, de que a mulher que lavou os cabelos de Jesus era Madalena, a pecadora.

* João situa o relato alguns dias antes, na casa de Lázaro, e diz que a mulher era Maria, irmã do morto ressuscitado.

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Dramatis Personæ (19): Paiva

Todas as tardes, às cinco em ponto, o telefone toca. Paiva atende, ajeita os óculos e repassa a lista cuidadosamente elaborada ao longo do dia com a ajuda da sua extensa lista de infotmantes:

— Aqui, tudo bem, sol o dia inteiro. O ciático do Armando piorou, então pode avisar que vai fazer mais frio em Porto Alegre. Em Vitória, a Maribela refclamou do reumatismo, mas eu desconfio de que isso é coisa que ela inventa para chamar a atenção, então é melhor anunciar “instável sujeito a chuvas”. O Agenor, de Manaus, disse que…

Do outro lado da linha, o técnico do Instituto de Meteorologia anota cuidadosamente as previsões.

Arquivado como:Dramatis Personæ

Por aqui

Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.