Era uma vez um coveiro, que todos conheciam como João das Mortes. Um dia, cuidando do cemitério, ele estava limpando uma tumba tão velha que nem mais se via um nome na lápide, quando ouviu uma voz. Prestando atenção, notou que a voz vinha de baixo da terra, e falava com ele.
Ali estava enterrado o Mau Ladrão, que zombou de Cristo na cruz. Para expiar sua culpa, ele a cada cem anos devia ajudar alguém. E então revelou a João que num lugar muito longe dali vivia uma pobre mulher, que no entanto tinha enterrado em seu terreno um saco com sete mil diamantes.
João agradeceu e pegou a estrada, seguindo as indicações da voz. Depois de muito caminhar, encontrou uma casa conforme a descrição que tinha ouvido, cercada de espinheiros e urtigas. Bateu na porta e se ofereceu para trabalhar ali como jardineiro.
“Sou pobre e não tenho como pagar”, disse a mulher.
“Viverei do que a terra me der”, ele respondeu.
Ela aceitou. E no primeiro dia mandou que João das Mortes limpasse toda a urtiga que havia coberto a frente da casa. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, ficou com a pele toda ardida, mas à noite o terreno estava limpo.
Na hora do jantar, a mulher pegou um punhado da urtiga que havia sido capinada e ofereceu num prato. João aceitou, comeu tudo sem reclamar e dormiu.
No segundo dia, a patroa mandou que João limpasse todos os espinheiros que haviam coberto os fundos da casa. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, ficou com a pele toda arranhada, mas à noite o terreno estava limpo.
Na hora do jantar, ela pegou um punhado dos espinhos que haviam sido arrancados e ofereceu num prato. João aceitou, comeu tudo sem reclamar e dormiu.
No terceiro dia, mandou que João preparasse a terra, para plantar um jardim. Ele trabalhou do nascer ao pôr do sol, sem um minuto de descanso, mas à noite o terreno estava preparado. E, enquanto revolvia o solo, encontrou na frente da casa um bom bocado de tubérculos e raízes — batatas, inhames, carás, cenouras e batatas-doces — que amontoou num canto. E, nos fundos, desenterrou um saco fechado, que deixou junto dos tubérculos.
Na hora do jantar, a mulher cozinhou os vegetais e ofereceu num prato. Depois abriu o saco que havia sido desenterrado, tirou dele um punhado de diamantes e com eles encheu outro prato, dizendo a João, que em três dias só havia comido urtigas e espinhos, que ele devia escolher seu pagamento: o monte de hortaliças ou o saco de pedras preciosas.
E a escolha do coveiro nós ficaremos sabendo na próxima semana.
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