(Continuando daqui)
O rapaz, que se chamava Fernando, montou em seu cavalo decidido a buscar o herói predestinado, onde quer que ele estivesse. Nas suas viagens, encontrou uma velhinha à beira da estrada e a ajudou a carregar um feixe de lenha para sua cabana. Contou em seguida o que buscava, e ela lhe disse que numa casa, no meio de uma floresta, viviam três irmãos, e um deles certamente poderia resolver o seu problema.
Ele conseguiu encontrar a casa e contou aos irmãos a história da jovem na torre de cristal. Um dos três, então, disse:
— Eu posso libertar a moça, mas o preço para isso é você me deixar furar seus olhos.
Fernando achou que perder os olhos era um preço pequeno a ser pago, e concordou. Deixou-se cegar e despediu-se do candidato a herói.
O primeiro irmão, seguindo as instruções de Fernando, partiu em seu cavalo. Mas voltou dias depois.
— Fracassei. Consegui escalar a torre, queimando minhas mãos e meus pés no cristal, mas quando cheguei ao topo a jovem não quis abrir a janela — contou.
Um dos que tinham ficado, então, disse a Fernando:
— Eu sei o que deu errado e posso fazer melhor. Mas você terá que me deixar cortar a sua língua.
Fernando achou que perder a língua era um preço pequeno a ser pago, e concordou, para depois se despedir do segundo irmão, que também montou no cavalo e foi procurar a torre. Dias depois, voltou, também desanimado.
— Falhei. Consegui escalar, queimando minhas mãos e meus pés. Bati na janela e a jovem a abriu, mas não quis falar comigo.
O terceiro irmão, então, achou que era sua vez.
— Mas para ter sucesso vou precisar que você me deixe cortar sua cabeça — disse ele a Fernando.
Era um prçeo alto, mas Fernando aceitou. E deitou o pescoço no cepo para ser decapitado. O terceiro irmão cortou-lhe a cabeça, guardou-a num saco e montou no cavalo.
Chegando à cidade, ele apeou junto à torre. E a escalou sem dificuldade, chegando rapidamente até o topo. Tocou a janela e ela se abriu. E então jogou no seu interior a cabeça de Fernando, dizendo à jovem:
— Este é o seu libertador.
Ela argumentou que Fernando era dali mesmo, daquela cidade.
— Mas você não é — respondeu o moço. — Você é de uma torre distante de todo o mundo. Por isso não envelhece e sua beleza nunca termina. Só será livre se aceitar a vida, o tempo e a morte.
E, dizendo isso, desceu, para montar no cavalo e voltar para sua casa. A moça, depois de muito pensar, desceu as longas escadarias que havia dentro da torre e pela primeira vez saiu dela, pondo os pés na cidade. Foi alegre e triste, jovem e velha, bela e feia, feliz e infeliz, por muitos e muitos anos, até morrer e ser enterrada junto da cabeça mutilada de Fernando, que guardou consigo até o último dia da sua vida.
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