Almanaque

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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Fricção científica (2): A Física segundo Chantilly

Lei da Gravidade: Se não está no chão, no chão estará.

Axioma anti-atomístico: Nada é tão pequeno que não possa ser partido em pedaços ainda menores. Principalmente se for de papel.

Princípio da incerteza: É impossível determinar ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma bolinha de papel quando um gato está brincando com ela.

Paradoxo de Schrödinger: Se um gato for fechado numa caixa com um dispositivo com 50% de chances de liberar um veneno mortal, antes de se abrir o dispositivo está ao mesmo tempo inteiro e quebrado, a não ser que o gato tenha conseguido pular para fora antes de fecharmos a tampa.

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Bestiário (13): O inominado

“Da terra formou, pois, o Senhor Deus todos os animais do campo e todas as aves do céu, e os trouxe ao homem, para ver como lhes chamaria; e tudo o que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os animais domésticos, às aves do céu e a todos os animais do campo.”
Gênesis 2,19-20a — infelizmente, a versão de Marco Aurélio dos Santos não apresenta esse trecho.

Diz a Cabala que um dos animais, porém, não recebeu seu nome nesse dia. E por isso tornou-se para sempre desconhecido dos homens.

Nada se sabe sobre ele. E, ensinam os cabalistas, nada se pode descobrir. Porque, se não foi nomeado por Adão, não pode sê-lo por mais ninguém. E, não tendo nome, não pode ser conhecido.

Alguns estudiosos afirmam que inominados coexistem com o homem desde sempre, no meio do gado, da caça e dos animais de companhia. Mas o que não é conhecido também não é reconhecível; daí, confunde-se com gatos, vacas e carcarás sem que se perceba sua existência.

Uma tradição pré-mosaica diz que o inominado foi, na verdade, a causa da Queda. Era o animal preferido de Lúcifer, que deu-lhe um nome antes de Adão e por isso foi condenado, tornando-se Satã. Seria, provavelmente, o animal que de fato ofereceu o fruto à mulher. “Serpente”, em hebraico, é “nahash”, também “adivinhar”: Eva não adivinhou qual era o ser com quem falava, já que não o conhecia.

Sefarditas temiam o inominado, que consideravam uma espécie de demônio ou vampiro que sugava as memórias das pessoas, causando amnésias e afasias.

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Folhinha (5): A fuga do alcaide

Bernália celebra hoje o Dia da Fuga. A tradição vem de 1763, quando os moradores revoltados expulsaram da cidade o alcaide imposto pelo rei, que oprimia a população com impostos escorchantes e leis injustas e foi posto a correr pelos amotinados.

A festa, na verdade, foi criada vinte anos depois, para lembrar a façanha. E desde então, todos os anos, no dia 28 de março o prefeito deve ser coberto de lama e palha e escorraçado até os limites da cidade. Em seu lugar, durante um dia, governa um cidadão escolhido por um sorteio de que todos — exceto o prefeito verdadeiro, é claro — podem participar.

Conta-se que, em 1869, o vencedor foi um mendigo. E administrou tão bem que o prefeito renunciou de forma que ele pudesse permanecer no cargo, o que fez por um ano. Em 28 de março de 1870, fugiu e nunca mais foi visto.

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Dramatis Personæ (18): Adalgisa

Começou sentindo presenças. Depois, suores, calafrios, tremores.

Um dia teve a nítida certeza de que alguém estava ao seu lado, procurando dizer alguma coisa. Mas algo impedia a comunicação.

Hoje, depois de anos de meditação e desenvolvimento espiritual para purificar os canais, Adalgisa finalmente consegue receber mensagens. Infelizmente, todas elas são do tipo “Perca peso dormindo”, “Créditos grátis no celular” e “Gatas quentes na webcam”.

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Histórias reais (8): A mulher

Atan criou o homem e o pôs nas ilhas de Tamiri (hoje Ilhas Fowley). Ensinou sua criatura a falar, a pescar, a fazer barcos e a usar o fogo. Mas todas as noites voltava para sua casa, no fundo do mar, e nunca dizia por quê.

Um dia, o homem estava pescando e sua rede pegou um golfinho, que disse:

— Por favor, poupe minha vida e eu lhe trarei o tesouro que Atan guarda em segredo.

O homem aceitou, pensando em olhar o tesouro e depois devolver. Mas, naquela noite, o golfinho trouxe a ele a mulher. E o homem decidiu então que ficaria com ela e não a devolveria mais.

Atan nunca se conformou. Quando acha que há uma mulher num barco, ele o faz virar com suas ondas, para recuperar o seu tesouro. Os nativos de Tamiri, que até hoje poupam o golfinho em suas pescarias, obrigam as suas mulheres a ficar sempre em terra firme, com medo de que elas sejam tomadas de volta.

Algumas, porém, vão sozinhas para o meio do mar na calada da noite e se jogam no abraço das águas.

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Dramatis Personæ (17): Túlio

Foi provavelmente o primeiro homem a, se não chegar a entender as mulheres, pelo menos encontrar um jeito de lidar com elas. Aplicando a sabedoria insuspeita de um provérbio, chegou à conclusão de que a melhor maneira de avaliar uma possível parceira era analisando seus relacionamentos anteriores. Diga-me com quem andaste.

O método infalível serviu de bússola. Evitava ex-namoradas de guitarristas (embora apreciasse as de baixistas) e principalmente as de pilotos de motos italianas. Apresentar em seu currículo um imigrante, de preferência clandestino, contava muitos pontos.

Depois de algum tempo, passou a se interessar com especial atenção pelas ex-mulheres de um sujeito que morava no prédio em frente. Quando olhava pela janela e via uma briga, já antegozava a sua próxima conquista, a quem amaria com paixão sincera mas já pensando no novo flerte do vizinho.

Descobrira, enfim, o homem ideal.

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História Universal da Infâmia (1)

Começa o outono no sul. Começa a primavera no norte.

É qui nócio hemisfério é diferente.

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A chuva nos cabelos

(Augusto Frederico Schmidt) 

A chuva molhava os seus cabelos,
A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!

Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.


Hoje é Dia Mundial da Poesia.

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Bestiário (12): O antibicho de goiaba

Todos sabem que no princípio do universo havia matéria e antimatéria em proporções iguais, e que pares de partícula e antipartícula ao se encontrarem anulam-se gerando energia pura. Todos sabem também que a matéria acabou prevalecendo e hoje a antimatéria existe apenas na ionosfera, no núcleo de Polaris e nos gibis de ficção-científica.

Mas poucos sabem que o mesmo acontece nas goiabeiras, onde pares de bichos de goiaba e antibichos de goiaba se desintegram quando se chocam e o resultado, em vez de energia, é polpa de goiaba pura.

Da mesma forma que a antimatéria, porém, os antibichos de goiaba são menos estáveis. Por isso, depois que todos são eliminados, quase sempre sobram alguns bichos para infestar as frutas.

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Postais do Exílio (9): Mjekësore

A Margarida da Albânia intriga qualquer visitante. Ninguém consegue entender como esse apelido foi dado a um lugar tão sujo, feio e desorganizado, onde a vida é miserável e insalobra.

É preciso dar as costas, sacudir a poeira dos sapatos e se afastar, subindo o planalto, para então ver como Mjekësore, ao longe, de fato parece uma flor plantada à beira do rio Devolli. Mas basta se aproximar para sua beleza desaparecer outra vez.

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Era uma vez (1a): A torre de cristal – continuação

(Continuando daqui)

O rapaz, que se chamava Fernando, montou em seu cavalo decidido a buscar o herói predestinado, onde quer que ele estivesse. Nas suas viagens, encontrou uma velhinha à beira da estrada e a ajudou a carregar um feixe de lenha para sua cabana. Contou em seguida o que buscava, e ela lhe disse que numa casa, no meio de uma floresta, viviam três irmãos, e um deles certamente poderia resolver o seu problema.

Ele conseguiu encontrar a casa e contou aos irmãos a história da jovem na torre de cristal. Um dos três, então, disse:

— Eu posso libertar a moça, mas o preço para isso é você me deixar furar seus olhos.

Fernando achou que perder os olhos era um preço pequeno a ser pago, e concordou. Deixou-se cegar e despediu-se do candidato a herói.

O primeiro irmão, seguindo as instruções de Fernando, partiu em seu cavalo. Mas voltou dias depois.

— Fracassei. Consegui escalar a torre, queimando minhas mãos e meus pés no cristal, mas quando cheguei ao topo a jovem não quis abrir a janela — contou.

Um dos que tinham ficado, então, disse a Fernando:

— Eu sei o que deu errado e posso fazer melhor. Mas você terá que me deixar cortar a sua língua.

Fernando achou que perder a língua era um preço pequeno a ser pago, e concordou, para depois se despedir do segundo irmão, que também montou no cavalo e foi procurar a torre. Dias depois, voltou, também desanimado.

— Falhei. Consegui escalar, queimando minhas mãos e meus pés. Bati na janela e a jovem a abriu, mas não quis falar comigo.

O terceiro irmão, então, achou que era sua vez.

— Mas para ter sucesso vou precisar que você me deixe cortar sua cabeça — disse ele a Fernando.

Era um prçeo alto, mas Fernando aceitou. E deitou o pescoço no cepo para ser decapitado. O terceiro irmão cortou-lhe a cabeça, guardou-a num saco e montou no cavalo.

Chegando à cidade, ele apeou junto à torre. E a escalou sem dificuldade, chegando rapidamente até o topo. Tocou a janela e ela se abriu. E então jogou no seu interior a cabeça de Fernando, dizendo à jovem:

— Este é o seu libertador.

Ela argumentou que Fernando era dali mesmo, daquela cidade.

— Mas você não é — respondeu o moço. — Você é de uma torre distante de todo o mundo. Por isso não envelhece e sua beleza nunca termina. Só será livre se aceitar a vida, o tempo e a morte.

E, dizendo isso, desceu, para montar no cavalo e voltar para sua casa. A moça, depois de muito pensar, desceu as longas escadarias que havia dentro da torre e pela primeira vez saiu dela, pondo os pés na cidade. Foi alegre e triste, jovem e velha, bela e feia, feliz e infeliz, por muitos e muitos anos, até morrer e ser enterrada junto da cabeça mutilada de Fernando, que guardou consigo até o último dia da sua vida.

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Dramatis Personæ (16): Rosa

Quando passava, os outros astrônomos do observatório de San Pedro de Atacama paravam de ver estrelas e só tinham olhos para ela.

Não demorou para que um deles chamasse de Rosa um cometa que havia detectado. Grandes coisas, bobagem de astrônomo amador, disse um colega, que em resposta batizou de Rosa um planetóide extranetuniano. Um terceiro encontrou um planeta extra-solar nos confins da Via Láctea, e deu a ele o nome da musa.

Em pouco tempo Rosa emprestava seu nome a hipernovas, galáxias, nebulosas, quasares, blazares, cefeidas e outros corpos celestes. Mas foi num congresso de astronomia, aquele mesmo que rebaixou Plutão, que ela entregou seu coração a um astrofísico que sugeriu mudar a denominação ”buraco negro” para “buraco rosa”, argumentando que de fato nada escapava à sua força de atração gravitacional.

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Postais do Exílio (8): Filaze

Na praça central fica o único monumento à barata de todo o planeta. Ereta, colossal, imponente, de asas abertas — segundo alguns, era para ser uma estátua eqüestre, mas pareceria irreal demais.

Não que os filazenhos tenham algum amor pelas baratas. Eles as detestam, de fato, talvez mais que todos os outros povos. Mas foi uma praga do inseto que quase devastou a cidade a única causa capaz de unir as famílias rivais em torno de um fim comum. E a inimiga virou símbolo da paz.

Como um deus maligno, ela ameaça a todos com o que pode acontecer se a discórdia voltar a reinar.

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Dramatis Personæ (15): Seu Altino

Planta couves, rabanetes e nabos no sítio em Itaipava para vender na feirinha orgânica do Leblon. Mas, como seus produtos são bonitos e brilhantes demais, quase sempre precisa dar umas batidas e amassadas, para que os fregueses não pensem que ele usa algum tipo de fertilizante ou agrotóxico na horta.

Recentemente descobriu a internet, e com ela os grupos de discussão. Passou a trocar experiências com outros pequenos produtores que enfrentam o mesmo problema. Mas ainda se recusa a usar o fabuloso nitrato de qualquer coisa que deixa as verduras com cara de comidas por bicho.

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Era uma vez (1): A torre de cristal

Era uma vez uma cidade onde havia uma alta torre de cristal. Não havia portas e nem entrada alguma, a não ser uma janela quase no topo, que só se abria uma vez por ano. Uma bela moça então mostrava o rosto, sempre chorando, e dizia:

— Ai de mim, porque o jovem que vai me libertar ainda não nasceu.

Fechava então a janela, e todos choravam por ela. E esperavam ansiosamente o nascimento do seu libertador.

Houve uma ocasião, porém, em que ela, ainda chorando, disse:

— Ai de mim, porque o jovem que vai me libertar já nasceu, mas vive numa terra muito distante.

Os habitantes da cidade, então, organizaram grupos de busca que partiram em todas as direções, procurando os meninos que haviam nascido naquele ano. Convidaram muitas famílias estrangeiras a se mudarem para perto da torre de cristal, e chegaram a seqüestrar algumas crianças cujos pais não aceitavam a idéia.

Ainda assim, a cada ano a janela se abria e a donzela repetia seu lamento. E os meninos rejeitados eram enviados de volta para as suas terras. Novos emissários procuravam mais candidatos, mas todos os anos a frase se repetia:

— Ai de mim, porque o jovem que vai me libertar já nasceu, mas vive numa terra muito distante.

Dezesseis anos depois, as esperanças já haviam definhado e morrido, ao contrário da prisioneira, que permanecia bela e jovem como sempre fora. Foi quando um rapaz, nascido naquela cidade, resolveu fazer alguma coisa. Na semana que vem eu conto o que aconteceu.

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Bestiário (11): Mogrel

Papa-sonhos, onirófago, vampiro das almas. Qualquer que seja seu nome, ele é temido.

Mogréis costumam pousar nas cabeceiras das camas para devorar os sonhos das pessoas que dormem. Por isso, quando acordam, elas não conseguem se lembrar de nada que tenham sonhado.

Raras vezes alguém conseguiu ver um mogrel — e viver para contar. De qualquer forma, a maioria dos relatos fala de um abutre com grandes asas de morcego e olhos amarelos, brilhantes, esbugalhados, latejantes.

Caçadores de mogrel são profissionais respeitados e muito requisitados. O nome pode ser impróprio, já que na maioria das vezes eles se limitam a afugentar as criaturas, com defumações, cantos e amuletos. Mas nem por isso eles deixam de ser eficientes.

Tipicamente uma besta solitária, pode também formar bandos em casos muito específicos. Certa vez, uma infestação numa aldeia levou mais de setecentos homens, mulheres e crianças ao limiar da demência.

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Dramatis Personæ (14): Beto Bola

Os torcedores mais velhos ainda se lembram do gandula mais rápido do país.

Beto Bola teve seu grande momento no Maracanã ao segurar uma bola chutada para fora por Nelinho numa cobrança de falta e recolocá-la dentro de campo para o tiro de meta em sete décimos de segundo, um recorde mundial. Naquela mesma tarde, devolveu seis escanteios seguidos sem deixar que a bola caísse no gramado.

O sucesso, infelizmente, subiu à cabeça de Beto. Nas partidas em que as bolas não saíam de campo com freqüência, ele se irritava e freqüentemente acabava brigando com jogadores e bandeirinhas. Várias vezes foi expulso de campo, apesar dos protestos de torcedores que iam ao estádio apenas para ver o ídolo em ação, qualquer que fosse o jogo. E assim aos poucos destruiu sua promissora carreira.

Hoje, superados os seus problemas com o álcool, dirige uma escolinha de gandulas em Belford Roxo. 

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Postais do Exílio (7): Ullabong

Nas praias as águas não são mais cristalinas como quando foram vistas pelo capitão Cook (e como ainda eram seis ou sete anos atrás).  A sujeira tomou conta do mar, dos rios, das nascentes e da floresta desmatada para a construção da usina e geração de energia que a alimentasse.

Mas valeu a pena.

À frente do seu tempo, as autoridades de Ullabong um dia decidiram fazer a sua parte para combater a poluição no planeta. E optaram pela construção da maior usina de reciclagem de lixo do mundo, para não deixar dúvidas sobre seu compromisso com o meio ambiente.

Antes disso, porém, era preciso criar a infra-estrutura necessária. E para isso foi instalada a maior usina de produção de lixo do mundo.

Só com o crescimento na capital, o país saltou do 216º lugar mundial em produção de lixo per capita para o 15º, superando a Hungria e logo abaixo do Canadá. Agora, com a matéria-prima necessária, já é possível alimentar a usina de reciclagem, cuja construção deverá ser concluída daqui a vinte anos, se não houver um novo atraso. Enquanto isso, o despejo nas praias continua.

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Fricção científica (1): O veneno do néctar

Danny Kessler e Ian T. Baldwin estavam intrigados com as substâncias encontradas no néctar — vitaminas, aminoácidos e alcalóides — e principalmente com os altos traços de nicotina nas flores de tabaco selvagem. Os dois desenvolveram uma variedade transgênica que produzia néctar sem tabaco, e descobriram que mariposas e beija-flores preferiam a bebida “careta”.

Então, por que a planta oferece um néctar menos agradável e que ainda pode ser nocivo para os polinizadores?

A hipótese mais provável é de que o objetivo seja justamente evitar que o primeiro inseto ou colibri chegue, beba tudo e vá embora. Quanto menor o consumo individual, mais polinizadores virão e maior a eficiência em termos reprodutivos.


A estratégia da Nicotiana attenuata é ser doce e venenosa. Como muitos seres humanos.

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Histórias reais (7): A siamesa

Desde antes dos primeiros reis budistas os gatos eram muito apreciados no Sião. E, nos palácios reais, os preferidos eram os inteiramente pardos e de olhos azuis.

Um dia, um wuthisapha (conselheiro), invejoso do prestígio dos felinos, convenceu o rei de que os gatos pretos, particularmente, eram agourentos. E conseguiu a promessa de que, se aparecesse algum no palácio, seria expulso.

O enciumado vizir, então, capturou Chenchen, a gata preferida da princesa do Sião, para pintá-la com tinta preta trazida da distante Nankin, na China. Mas a gata, rebelde, conseguiu fugir quando ele tinha pintado apenas a sua cauda.

O wuthisapha saiu em perseguição, e para escapar dele Chenchen teve que atravessar uma poça de piche, na qual afundou suas patas, que assim ficaram também pretas.

A gata conseguiu finalmente chegar aos aposentos da princesa, que a princípio achou que fosse uma vira-latas da rua. Mas, brincando com um de seus anéis, deixou que ele caísse nas cinzas da lareira. O animal enfiou as orelhas e o focinho na fuligem para pegar a jóia da sua dona, que só então a reconheceu.

E assim surgiu a primeira gata siamesa com manchas escuras, que se tornaram o padrão dos bichanos na corte real de Bangcoc. O conselheiro, sem conseguir explicar a tinta preta em suas mãos e o piche em seus sapatos, teve descoberto seu plano e foi expulso do reino.

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Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.