Escritor em plena crise pessoal e criativa, um dia decidiu aceitar o convite de quatro amigas e coordenar um romance a oito mãos que elas pretendiam escrever.
Na primeira reunião de trabalho, o manuscrito trazido por Ofélia era idêntico ao de Judite, que era igual ao de Rita, que reproduzia ipsis litteris o de Carolina. Ele achou estranho, e mais estranho ainda o fato de as co-autoras, que trabalhavam de forma independente, considerarem tudo absolutamente normal.
A quarta reunião de trabalho foi na casa de Ofélia.E, como Carlo já esperava, e como nas três ocasiões anteriores, as quatro parceiras haviam escrito exatamente o mesmo texto. Daquela vez, ficou até mais tarde, depois de as outras saírem, e cobrou explicações da sua anfitriã. Mas ela só respondia com versos do “Sonho de uma noite de verão”. Tentou então se lembrar de alguma frase dita por ela que não fosse uma citação de Shakespeare. Não havia uma sequer.
Quando abriu os olhos novamente, Ofélia havia desaparecido. E ele estava em casa.
Judite, Rita e Carolina não estranharam a ausência de Ofélia nas reuniões seguintes, em que os capítulos, agora a seis mãos, prosseguiam sendo escritos em uníssono. Carlo achou que a zombaria estava indo longe demais, e ameaçou se retirar do grupo, que afinal não precisava da sua colaboração. Judite, que sabia ser muito persuasiva, convenceu-o a ficar e passar a noite com ela.
Quando estavam a sós, Carlo percebeu que as palavras de Judite também eram citações, porém não de Shakespeare, e sim da Bíblia. “Beija-me com os beijos da tua boca”, ela pediu, mas ele deu-lhe as costas — e viu-se mais uma vez sozinho em sua casa.
O romance avançava agora apenas com Rita e Carolina. Mas a linguagem das duas era coloquial, sem o tom arcaico de Ofélia e Judite. A qualidade do livro melhorava, mas Carlo se sentia cada vez mais estranho. E na noite em que ficou a sós com Rita, aconteceu o que ele mais temia. “Te perdôo por fazeres mil perguntas”, ela disse, como no blues de Chico Buarque. Foi embora dali, já sabendo que ela desapareceria.
Faltava apenas o epílogo. E, antes dele, Carlo tratou de se lembrar de todas as frases que ouvira da boca de Carolina. Por mais que pesquisasse, não conseguia identificar a origem. Não eram música nem literatura. Eram frases de verdade, de uma mulher real. Por isso, antes que ela chegasse em sua casa com o epílogo, levou-a para a cama.
“Me come como se eu fosse poeta”, ela pediu. E ele se lembrou da frase, dita há muitos anos por uma aluna. “Você sempre me tratou como se eu fosse uma personagem sua”, foram as suas últimas palavras antes de desaparecer, as mesmas usadas pela primeira mulher de Carlo quando se separaram.
Sozinho, Carlo foi até o escritório, abriu a gaveta e encontrou doze capítulos de páginas em branco.
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