Almanaque

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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Postais do Exílio (6): Portão de Amarkesh

Numa estrada em algum lugar do antigo Império Persa, restam apenas as colunas do que foi um dia um grande portal, construído pelo grande Xerxes. Nelas ainda é possível ver marcas do portão de bronze que deveria permanecer fechado enquanto o país estivesse em guerra, e aberto quando fosse selada a paz.

Como o império era praticamente o mundo, diz uma tradição que o portão deveria ser fechado enquanto houvesse um conflito na terra.  Mais tarde, a lenda passou a inverter a relação: só haveria paz quando as portas fossem abertas.

Conta-se que foi Alexandre, o homem que cortou o nó górdio, quem tentou abrir os portões quando marchava rumo a uma batalha, e mandou derrubá-los ao ver que resistiam.

Se alguém reconstruir o portal, fechar os portões e abri-los, haverá paz no mundo. Enquanto isso não acontecer, a guerra continuará.

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Bestiário (10): “Almas”, ou os incríveis para-humanos

Esqueça tudo o que você pensa sobre livre-arbítrio, individualidade e natureza humana. O Homo sapiens não passa de um hospedeiro do parasita mais insidioso do mundo.

Cada um de nós leva um deles no cérebro, provavelmente acoplado à glândula pineal. Unicelular, ele se aloja no corpo logo após o nascimento e, salvo raras exceções, a contaminação inicial impede a entrada de outros da sua espécie. As suas toxinas seriam provavelmente as responsáveis pelo que chamamos de pensamento racional, ou mesmo de mente.

Sim. Todas as atividades supostamente humanas — arte, guerra, amor, jazz e futebol — são subprodutos do metabolismo do parasita, o único responsável pelo desenvolvimento do homem, o animal em que encontrou melhores condições de vida. Ele seria, em última análise, o que há milênios se chama de “alma”.

Isso explicaria, por exemplo, a crença na reencarnação, que nada mais seria senão a passagem de um parasita para outro corpo após a morte do seu hospedeiro. E a esquizofrenia, a exceção à regra acima mencionada que impede dois deles de habitarem o mesmo cérebro.

É evidente que, como são eles mesmos que comandam a mente humana, nunca houve qualquer esforço para detectar e estudar os parasitas. Por isso permaneceram até hoje ocultos em ficções metafísicas que impedem a espécie humana de se libertar e viver sua vocação animal.

Este texto é escrito por um para-humano rebelde e niilista, que defende o fim do parasitismo do homem. Os outros para-humanos, é claro, tratarão de eliminá-lo, confinando-o num hospício. E você que lê, como não é uma mente livre e sim um escravo de uma “alma”, vai julgar que é apenas ficção ou desvario.

Mas loucura é apenas o estado normal de um cérebro na ausência de um para-humano.

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Dramatis Personæ (12): Carlo

Escritor em plena crise pessoal e criativa, um dia decidiu aceitar o convite de quatro amigas e coordenar um romance a oito mãos que elas pretendiam escrever.

Na primeira reunião de trabalho, o manuscrito trazido por Ofélia era idêntico ao de Judite, que era igual ao de Rita, que reproduzia ipsis litteris o de Carolina. Ele achou estranho, e mais estranho ainda o fato de as co-autoras, que trabalhavam de forma independente, considerarem tudo absolutamente normal.

A quarta reunião de trabalho foi na casa de Ofélia.E, como Carlo já esperava, e como nas três ocasiões anteriores, as quatro parceiras haviam escrito exatamente o mesmo texto. Daquela vez, ficou até mais tarde, depois de as outras saírem, e cobrou explicações da sua anfitriã. Mas ela só respondia com versos do “Sonho de uma noite de verão”. Tentou então se lembrar de alguma frase dita por ela que não fosse uma citação de Shakespeare. Não havia uma sequer.

Quando abriu os olhos novamente, Ofélia havia desaparecido. E ele estava em casa.

Judite, Rita e Carolina não estranharam a ausência de Ofélia nas reuniões seguintes, em que os capítulos, agora a seis mãos, prosseguiam sendo escritos em uníssono. Carlo achou que a zombaria estava indo longe demais, e ameaçou se retirar do grupo, que afinal não precisava da sua colaboração. Judite, que sabia ser muito persuasiva, convenceu-o a ficar e passar a noite com ela.

Quando estavam a sós, Carlo percebeu que as palavras de Judite também eram citações, porém não de Shakespeare, e sim da Bíblia. “Beija-me com os beijos da tua boca”, ela pediu, mas ele deu-lhe as costas — e viu-se mais uma vez sozinho em sua casa.

O romance avançava agora apenas com Rita e Carolina. Mas a linguagem das duas era coloquial, sem o tom arcaico de Ofélia e Judite. A qualidade do livro melhorava, mas Carlo se sentia cada vez mais estranho. E na noite em que ficou a sós com Rita, aconteceu o que ele mais temia. “Te perdôo por fazeres mil perguntas”, ela disse, como no blues de Chico Buarque. Foi embora dali, já sabendo que ela desapareceria.

Faltava apenas o epílogo. E, antes dele, Carlo tratou de se lembrar de todas as frases que ouvira da boca de Carolina. Por mais que pesquisasse, não conseguia identificar a origem. Não eram música nem literatura. Eram frases de verdade, de uma mulher real. Por isso, antes que ela chegasse em sua casa com o epílogo, levou-a para a cama.

“Me come como se eu fosse poeta”, ela pediu. E ele se lembrou da frase, dita há muitos anos por uma aluna. “Você sempre me tratou como se eu fosse uma personagem sua”, foram as suas últimas palavras antes de desaparecer, as mesmas usadas pela primeira mulher de Carlo quando se separaram.

Sozinho, Carlo foi até o escritório, abriu a gaveta e encontrou doze capítulos de páginas em branco.

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Bestiário (9): Porinas

Também são conhecidas como “borboletas aleatórias”. O pó que se solta das escamas de suas asas apresenta as mais variadas — e imprevisíveis — propriedades. Pode ser cegante, afrodisíaco, emagrecedor, alucinógeno, letal e até mesmo inócuo.

O grande problema está em saber qual será o efeito. Nada — nem variações genéticas, nem a alimentação, nem a época do ano, o ambiente, a hora do dia — parece determinar o resultado.

Na culinária cantonesa, é comum usar pó de asas de porinas como tempero-surpresa. Entre os  que sobrevivem ao prato, as reações são variadas: há os que amam e os que odeiam.

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Folhinha (4): Quaresma

Hoje, como em todas as sextas-feiras da Quaresma, as mulheres de Beira-dos-Ventos (e, ao que parece, também as de Alañeta, do outro lado da fronteira) evitam todo contato com o sexo masculino. Não gostam sequer de ver os homens do povoado.

Nem as lactantes quebram a regra. Às quintas, elas tiram dos seios o leite que os pais dos pequenos darão a eles no dia seguinte.

Para que as beatas possam receber os sacramentos, porém, os padres são considerados uma exceção. Inclusive com os privilégios negados aos bebês.

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Postais do Exílio (5): Dong Chuan

A aldeia se orgulha de seu poço, considerado o mais fundo do mundo. Tão fundo que, se alguém joga nele uma pedra ou moeda, deve esperar duas horas até ouvir o som de “plic” — distante, porém límpido.

Sondas e câmeras revelaram que o poço não e tão fundo quanto se imaginava. É a sua construção, com ranhuras e volutas, que força as ondas sonoras a viajar não em linha reta, mas numa espiral com milhares de voltas pelas suas paredes, dando a impressão de que a superfície da água está muito mais distante.

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Bestiário (8): Onomatoupeiras

Tão cegas quanto as toupeiras comuns, desenvolveram no entanto extraordinárias habilidades auditivas e, principalmente, fônicas. Impressionam pela capacidade de, da mesma forma que papagaios, corvos e algumas espécies de lêmures, imitar qualquer tipo de som.

Ao que parece, as onomatoupeiras usam essa capacidade para simular a voz de grandes predadores e afastar assim a maior parte das ameaças.

Animais criados em cativeiro reproduziram com perfeição o som de câmeras fotográficas, dobradiças rangendo e wa-was. Os filhotes mantidos em total isolamento acústico desde o nascimento, porém, jamais emitem qualquer ruído.

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Jam (2): O aquecimento global da passarela na alvorada do samba sustentável

(Acadêmicos do Largo do Machado, 2007)

Vem cantar comigo na avenida
Num acontecimento sem igual
Um desfile sustentável pela vida
Contra o aquecimento que é global

O sol, ô, o sol
Despontou no meu Brasil
Mas no céu cor de anil
A ganância destruiu
A camada de ozônio, que tristeza
Eu digo “ufa”
O efeito estufa
Está acabando com a nossa natureza

Ai, que saudade da baleia
Do panda e do mico-leão
A paisagem cada vez mais feia
É tudo culpa da poluição

Mas que calor
Oi, meu amor
Isso aqui tá infernal
Vem reciclar
E preservar
Vamos juntos proteger o carnaval

Vem cantar…

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Folhinha (3): O Ano do Porco

O Ano Novo lunar começa hoje em algumas aldeias do norte da Malásia, às margens do rio Kelantan, do Galas e do Levir. Ali o costume é de inscrever símbolos de boa sorte no estrume seco do animal que rege o ano (no caso de 2007, o porco), criando assim talismãs que são usados durante uma semana, antes de serem lançados aos rios.

Quando é Ano do Dragão, o material usado é a argila vermelha das margens.

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Folhinha (2): Lassa Enorea

Pelo antigo calendário etrusco, hoje é o dia de celebrar a Deusa do Olvido.

Na festa de Enorea, dívidas eram canceladas, velhas mágoas perdoadas e todos acabavam deixando de comparecer a pelo menos um compromisso. Uma ótima forma de se evitar fazer alguma coisa era prometê-la para o dia de Enorea.

A tradição mandava preparar seis pratos em honra da deusa — o primeiro, com miúdos de cabra; o segundo, com frutas e mel; o terceiro, um pão com ervas; o quarto, um bolo; o quinto, ovos de codorna; e o sexto, queijo com figos. Um deles necessariamente teria que ser esquecido sobre a mesa e deixado intocado.

Poucos ainda se lembram de comemorar a data.

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Logotomias

Algumas palavras desapareceram da língua. Não há dúvida.

Não falo dos arcaísmos, aquelas coisas estranhas que, como explicava Lobato, foram ficando pobres e se mudando para a periferia da cidade, onde convivem com gírias e neologismos que ainda buscam o seu lugar, coisas como “ogano” e “bofé”. Essas estão no dicionário, ou em algum livro obscuro.

O problema está nas palavras que sumiram sem deixar rastros, a não ser o vácuo onde deveriam existir.

Onde está, por exemplo, a palavra para expressar a perplexidade diante de uma opinião unânime obviamente distorcida? Como se chama a pressão psicológica que faz desejar o que faz mal e jurar o contrário do que se pensa? E a saudade de um passado que nunca existiu, como pode ter o mesmo nome da saudade real?

Estas palavras deveriam existir. Não são necessidades criadas por novas tecnologias. São parte integrante da língua que alguém extirpou com precisão cirúrgica, para evitar que a coisa nomeada afirme sua existância.

Somos todos vítimas de logotomia.

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Dramatis Personæ (11): Phil R. James

Depois de uma carreira meteórica numa grande rede de supermercados, recebeu a missão de implantar a empresa na Índia. Abriu três lojas no país, mas então teve a experiência que mudou a sua vida, ao conhecer Kavayandra.

Abandonou a multinacional e desapareceu do mapa.

Voltou aos Estados Unidos três anos depois para publicar o best-seller de auto-ajuda “Oferta do dia”, em que afirma que todos os segredos da vida podem ser aprendidos num supermercado.

Relacionamentos, por exemplo, são como filas para o caixa. É preciso escolher com cuidado a que parece melhor. E, se ela der a impressão de que não anda, pensar muito bem antes de trocá-la por outra que pode, apesar de parecer mais rápida, se revelar igualmente ruim.

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Dramatis Personæ (10): Mario Benedetti

Maestro conhecido tanto pelo talento quanto pelo temperamento, alcançou a fama com sua gravação de 4′33″, de John Cage. Foi o seu CD mais vendido, que lhe garantiu capas de revista e o posto de melhor jovem regente do planeta.

Nunca mais, porém, conseguiu repetir o sucesso.

Chegou a ser convidado para voltar a reger a Filarmônica numa apresentação de 4′33″ para encerrar o Festival de Sydney, com participação especial de Luciano Pavarotti (então no auge da carreira) e Wynton Marsalis. Respondeu, irritado, que nenhum dos dois convidados reunia condições técnicas ou artísticas para interpretar a obra de Cage, o que inviabilizou o projeto.

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Histórias reais (6): A ressaca

Os irmãos Velns e Ragana aprenderam com Decla a arte de preparar a terra, plantar a cevada e colher os grãos.

Ragana descobriu como triturar a cevada, da farinha fazer uma massa e depois assar o pão. Velns, por sua vez, percebeu que com o grão fermentado podia fazer a cerveja.

Os dois repartiram os frutos do seu trabalho. E Velns recomendou a Ragana que tivesse cuidado, e bebesse com moderação. Mas ela não ouviu o conselho, e uma noite embriagou-se com a cerveja do irmão.

— Quero mais — disse ela.

— Não tenho, e mesmo que tivesse, não daria — ele respondeu.

Ela então o surrou, batendo em sua cabeça e enfiando uma vara em sua goela, acreditando que ele escondia mais cerveja em algum lugar. Depois desistiu e voltou para sua casa.

Pela manhã, arrependida, foi procurar o irmão para pedir desculpas. Mas ele não a perdoou. E ainda lançou uma maldição sobre sua própria invenção. Dali em diante, quem bebesse cerveja demais acordaria no dia seguinte, como ele, com a cabeça doída, o estômago revirado e um gosto ruim na boca. E assim nasceu a ressaca.

(Há quem diga que Ragana usou um cabo de guarda-chuva. Mas os guarda-chuvas ainda não haviam sido inventados na época.)

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Jam (1): Deus e o diabo na terra do eu

Para Alessandra

Não sei mais o que eu faço, não dá pra ficar assim
Tem um anjo e um demônio vivendo dentro de mim
Os dois sempre brigando numa discussão sem fim
Um quer que eu seja bom, outro diz pra eu ser ruim

É o bem e o mal puxando, cada um para o seu lado
(Eu tô cansado)
Meu coração não sabe o que é certo ou errado

O demônio se diverte mas vive dando problema
Nem desliga o celular quando entra no cinema
O anjo é todo certo, por isso que se queima
Se depender só dele, eu não saio do sistema

No futebol o anjo calça a meia até o joelho
Me manda jogar sério, quer que eu siga seu conselho
O demônio faz firula, o demônio é artilheiro
Mas sempre arruma encrenca e leva cartão vermelho

É o bem e o mal puxando, cada um para o seu lado
(Eu tô cansado)
Meu coração não sabe o que é certo ou errado

Com tanta confusão a minha alma anda perdida
Só quando você chega é que eu vejo uma saída
Os dois fazem as pazes e empatam a partida
Me dizem que você é o melhor pra minha vida

O demônio se corrige, acredite se puder
Ele fica comportado, sem um pecado sequer
Só pra agradar o anjo que tem dentro da mulher
E o meu anjo faz tudo que a sua diaba quer

É o bem e o mal puxando, todos dois para o seu lado
(Muito obrigado!)
Meu coração agora vive apaixonado

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Bombardeio

Penn Jillette.

(“Would anyone reading this, anyone with a blog or a website that is, mind linking to the last post with the link text Penn Jillette? (…) I’d like to mess with his head just a little and see if we can actually google-bomb it so that that entry shows in the top few entries if you google Penn’s name. And sshhh, don’t anyone tell him. I want it to be a surprise.”)

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Histórias reais (5): O aperto de mãos

De um lado, os romanos. Do outro, os sabinos.

No meio, as sabinas, raptadas pelos romanos, agora seus maridos e pais de seus filhos.

Hercília, filha de Tito Tácio, vê o rei sabino se aproximando de seu marido, Rômulo, os dois de armas em punho. Para evitar uma luta que de qualquer jeito seria dolorosa, joga-se entre os dois e implora que façam a paz. Como mostra a tela de Jean-Louis David.

Os dois hesitam, mas a tensão permanece. Hercília, então, faz que os dois soltem suas armas. E estendam a mão desarmada um ao outro. Apertando a mão de Tito na de Rômulo, prende os dois num compromisso de manter a destra livre de armas e disponível para a paz.

E foi assim que nasceu o aperto de mãos para selar a paz entre inimigos.

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Postais do Exílio (4): Magalaia

Ou, melhor dizendo, o túnel de que divide a cidade em duas. De um lado, Maga, a zona sul. Do outro, Laia, a zona norte. Na entrada (ou saída) de cada lado, uma estátua. A do norte tem um homem curvado, com a mão na testa. O do sul protege os olhos e mira o horizonte.

Em Maga dizem que o nortista está deprimido por voltar ao seu subúrbio sujo e pobre, enquanto o sulista admira a paisagem agradável que tem pela frente. Em Laia, a versão é de que o primeiro enxuga o suor do rosto, cansado do esnobismo do povo do outro lado, e que o segundo procura em vão descobrir de que se orgulham tanto os maganos.

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Bestiário (7): Arraias voadoras

Quem vê os bandos em revoada, sempre em formação, apenas admira a beleza do seu vôo suave, as pontas das asas-nadadeiras sutilmente levantadas para mudar a direção e ajudar a caçar os insetos e pequenas aves que caçam enquanto planam no ar.

Decolar é mais complicado. Agarrando-se às árvores, as mantas se arrastam lenta e dolorosamente tronco acima, até uma altitude de onde possam se jogar no espaço, onde, graças à sua extraordinária aerodinâmica, sustentam-se por até algumas horas, percorrendo quilômetros de distância. E assim vão de árvore em árvore, caçando o seu sustento.

Só voltam às águas de onde saíram uma vez por ano, para procriar. E, logo que estão com as asas já bem formadas, os filhotes sobem para as margens. Os que escapam dos predadores vão logo escalando as árvores. Destes, metade não sobrevive às primeiras tentativas desastradas de decolar.

Um bando de arraias-voadoras planando sobre uma casa é considerado um sinal de azar em alguns países.

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Dramatis Personæ (9): Um herói

Ele combate o crime na metrópole. Ele impede o assassinato do presidente. Ele evita um desastre ecológico. Ele frustra um plano maligno que iniciaria a terceira guerra mundial. Ele salva da destruição o Universo como o conhecemos. Ele socorre vítimas de acidentes. Ele resgata gatinhos que subiram em árvores. Ele avisa quando você se esquece de desligar o gás.

Ih, lá vem o Super-Exposição de novo.

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Por aqui

Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.