No começo, a Terra, mãe de todos, tinha filhos todos os dias. E o mundo se coalhava de seres brotados das suas entranhas. Gerar era sua única preocupação, e dela tanto nasciam as criaturas perfeitas, como o ovo, a salamandra e a esmeralda, quanto aberrações como o berne, o tédio e a mantícora (que um dia um herói matou, mas essa é outra história).
Um dia o Céu foi se queixar. Pediu que a Terra parasse de povoar o mundo. Mas ela se mostrou irredutível. Porque aquela era a sua natureza, explicou.
O Céu insistiu e conseguiu arrancar da Terra uma promessa. Dali em diante ela só geraria os filhos que desejasse e amasse. Ela aceitou a regra. E em seguida criou a mulher.
— Você também vai criar vida — anunciou. — E, da mesma forma que eu, deverá gerar apenas os filhos que quiser amar.
A mulher entendeu.
Mas por essa época a Terra já havia engendrado o preconceito, a ignorância e a intolerância. E eles convenceram a mulher de que seria obrigada a amar tudo o que gerasse, e não o contrário.

