Segredos entre três pessoas nunca são guardados. E é assim que eles aparecem em “Papel Manteiga”.
Antonia, a Bisa e Senhorita se envolvem numa trama de mistérios que se torna insuportavelmente tensa até partir. Mas a catástrofe anunciada não acontece. Porque os segredos são escritos — melhor dizendo, embrulhados — em papel-manteiga. Translúcido, pedindo pra ser descoberto.
Ser revelado é a própria essência do segredo, tanto quanto a possibilidade de morrer é o que torna a vida preciosa e a delícia do amor está na sua fragilidade. E se a literatura exige a trama secreta, o subtexto que não se explicita, isso também só faz sentido se o leitor finalmente é admitido na cumplicidade.
Porque a narradora, com a autora e a co-autora, forma outro triângulo, que repete o primeiro como num espelho, ou numa homotetia. As três tecem uma conspiração que mais cedo ou mais tarde precisa ser traída. Antonia, a inconfidente, não resiste e sussurra ao leitor as dicas para entrar no segredo do livro: isto não é o que parece.
Ao contar suas aventuras como pupila da Senhorita, ela volta e meia escorrega e revela suas verdadeiras intenções: falar do amor e da literatura. No fim das contas, é a mesma coisa. Escritores e amantes devem saber cozinhar, amassar o pão, comer terra para aprender seu gosto. Levar seis vezes a massa à geladeira para fazer mil-folhas, a intrincada superposição de camadas que, transformadas em livro, permitem diversas leituras.
Por isso Senhorita não gosta dos livros de receita, os livros que seguem receitas, e muito menos dos seus leitores. Exigente no que se refere a pratos e poemas, não tolera a superficialidade disfarçada de requinte. Faz questão de que mesmo e principalmente a ficção tenha consistências de verdade.
A duras penas Antonia aprende com ela a diferença entre culinária e comida. “Papel Manteiga” é isso mesmo: comida que satisfaz, alimenta e delicia.

