Arquivo do dia: segunda-feira, 15/1/2007

Histórias reais (2): A boca do tamanduá

Naquele tempo, o tamanduá era bem diferente. Sua boca era imensa, e cheia de dentes afiados, para devorar suas presas. Era a fera mais voraz da floresta e nenhum animal estava a salvo dele, a não ser, talvez, a onça.

Um dia os outros animais se juntaram para discutir a situação. O tapir reclamou porque sua cauda fora arrancada a dentadas (e por isso até hoje ele não tem rabo). O veado queixou-se de que quase toda a sua ninhada tinha virado comida de tamanduá, e só restara um (por isso o veado só tem um filho de cada vez). A arara escapara por pouco, e só porque podia voar, mas mesmo assim levou um corte tão feio que suas penas ficaram todas vermelhas de sangue, como ainda são.

Discutiram muito como resolver o problema. A preguiça, que não queria fazer muita coisa, sugeriu pedir ajuda à onça. Mas ninguém ousaria ir falar com ela, e se no fim o tamanduá matasse a onça o resultado seria pior ainda.

Foi então que a formiga disse:

— Eu resolvo.

Todos riram, porque a formiga era o menor e mais fraco dali. Mas ela não se importou e foi embora cuidar do seu plano.

A formiga sabia que, depois de carne, a comida preferida do tamanduá era jabuticaba. Por isso, no fim da temporada, guardou bem guardada a maior que conseguiu carregar. E ficou esperando agosto chegar.

Quando agosto chegou, deixou o seu tesouro bem à mostra no chão, no meio do caminho por onde passaria o tamanduá. Este, assim que viu a fruta, foi correndo pegá-la. Mas a formiga rolou a fruta para um buraco, antes que o bicho chegasse.

O tamanduá, louco para comer uma jabuticaba fora de época, enfiou a cabeça no buraco, que no entanto era fundo e se afunilava, de um jeito tal que a sua boca não chegava até a fruta.

Já estava desistindo quando a formiga perguntou:

— Ora, então o animal mais forte, valente e feroz vai desistir de comer uma iguaria só por causa do buraco que eu cavei?

Irritado, o tamanduá se sentiu ferido no seu orgulho. E enfiou a cabeça o mais fundo que pôde no buraco, até que ela ficou presa. A formiga não esperava outra coisa e começou a picar as gengivas da fera.

O tempo foi passando e nada de o tamanduá desistir. Pelo contrário, ficava ainda mais furioso e mais determinado a comer a jabuticaba de qualquer jeito. E a formiga ia picando sua boca, e as feridas gangrenavam, e os dentes foram caindo um por um. E o focinho ia ficando mais comprido, e a língua também, até ele ficar do jeito que é hoje.

Quando viu que tinha atingido seu objetivo, a formiga largou o tamanduá e carregou a jabuticaba para outro buraco mais fundo ainda.

Do lado de fora, o tatu, o tucano e a capivara riam sem parar. Porque o macaco tinha aproveitado para desfiar a bela cauda trançada do tamanduá, deixando um monte de pelos soltos.

Vendo que tinha sido enganado, o tamanduá finalmente tirou a cabeça do buraco. E a gargalhada foi maior ainda, porque sua boca tinha ficado fina e comprida e perdido todos os dentes.

Por isso até hoje ele persegue as formigas. E não quer mais saber de jabuticaba.