Arquivo do dia: sexta-feira, 12/1/2007

Bestiário (2): O lobo inexistente

Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios, compara a fé com a situação de um homem que diz ter um dragão em sua garagem. O dragão, porém, é invisível, incorpóreo, não pode ser detectado por meio algum, esquiva-se de qualquer tipo de abordagem objetiva. Em resumo, conclui Sagan, não há diferença alguma entre um dragão como esse e um dragão inexistente.

O astrônomo, porém, não conheceu o lobo inexistente.

Os primeiros registros do estranho animal aconteceram nas estepes siberianas, em meados do século passado. Alcatéias se formavam de forma atípica, sem a presença de um macho alfa que liderasse os outros. Zoólogos soviéticos quiseram ver nisso uma espécie de socialismo animal, uma ditadura do proletariado lupino.

Mas não era bem assim. Havia, na verdade, um líder — porém inexistente. Todos os lobos se comportavam como se ele estivesse lá, e não como numa comuna de poder compartilhado. O que levou a outra interpretação equivocada, desta vez de teólogos naturalistas: era uma afirmação, pela própria natureza, da necessidade de um Ser Superior.

Estudos posteriores, entretanto, comprovaram que os líderes invisíveis eram apenas uma das posições assumidas pelos lobos inexistentes. Como os seus semelhantes de carne e osso, havia jovens, filhotes, velhos. Machos e fêmeas. Smirakov chegou a encontrar uma alcatéia inteira inexistente, em 1987.

Ecologistas acreditam que a principal causa do declínio das populações de lobos na região é a ausência de lobos inexistentes, os mais sensíveis às mudanças no hábitat. O maior desafio agora é reproduzir o animal em cativeiro para reintroduzi-lo na natureza. Notícias sobre os projetos pioneiros são aguardadas ansiosamente, mas até agora não existe nenhuma.