Arquivo do dia: quinta-feira, 11/1/2007

Bestiário (1): Gondava

Quando os portugueses chegaram a Goa, encontraram esta ave que os habitantes chamavam de g’ndaw, “solitária”. Um marinheiro da nau de Vasco da Gama quis levar uma delas a bordo. Mas o navegador achou que seu canto triste, de quem sempre procura o que nunca vai encontrar, seria de mau agouro — e vetou a mascote.

A gondava vive só. Nunca procura outras de sua espécie, nem mesmo para o acasalamento. A maioria das fêmeas é capaz de procriar sem necessidade de fecundação. O filhote, seja qual for o sexo, abandona o ninho após quatro meses, ainda não totalmente amadurecido, e nunca mais vê a mãe.

 Às vezes, porém, acontece de um par de gondavas se encontrar nas praias ou nos rochedos da Índia. Quando se vêem, duas metades capazes de se completar, calam seu canto, aquele mesmo que o Luso não queria ouvir. E perdem-se em contemplação mútua, como narcisos sem espelho, num estado de fascinação tal que não mais se alimentam, nem procuram abrigo, nem fogem dos predadores. E ali mesmo morrem.

O canto da gondava, diz um provérbio konkani, é triste não por ela ser solitária. Mas sim porque não sabe amar sem morrer.