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Histórias reais (1): A roupa nova do Sapo

O sapo era o mais vaidoso dos animais. E a maior prova disso estava no seu imenso guarda-roupa. Ele tinha peles de todas as cores, padrões, texturas e formatos que se pudesse imaginar, e gabava-se de nunca usar duas iguais.

A serpente também vivia trocando de roupa. No seu caso, porém, coitada, era por necessidade. Ao contrário do sapo, que se movimentava aos saltos, ela precisava se arrastar na terra, entre pedras, galhos e folhas. O resultado é que volta e meia sua pele estava toda puída e rasgada, e precisava ser substituída.

Aconteceu que, mesmo assim, o sapo quis as roupas da cobra. E foi à sua casa pedir uma emprestada. Ela, porém, negou

— Vossa Sapiência já tem muitas roupas. Eu só uso as de que preciso — explicou a serpente, usando o tratamento respeitoso que na época se devia aos batráquios.

Ele, no entanto, insistiu. Afinal, mesmo com toda a sua imensa coleção, não se sentia satisfeito. Porque quem mais tem mais quer.

— É só um empréstimo. Quando quiser que eu devolva, a senhora me cobra.

A serpente se irritou com a teimosia e mais ainda com o trocadilho. Abriu a boca e mostrou as presas, que gotejavam veneno. O sapo, que realmente era de grande sapiência, saltou para longe dali. Mas depois aproveitou que a serpente estava dormindo e roubou o belo traje rajado novo que estava no seu guarda-roupa, aliás um guarda-peles.

A serpente acordou e deu pela falta da roupa, que pretendia trocar naquele mesmo dia. Desconfiada, foi à casa do sapo, que estava usando a pele da cobra.Quando ela bateu na porta, ele só teve tempo de tirar a roupa, virar pelo avesso e vestir de novo.

— Mas que pele estranha Vossa Sapiência está usando! — elogiou. — Mas parece até que está pelo avesso.

— É a última moda, não sabe? — explicou o sapo. — A tendência da estação.

A serpente sibilou com a língua bifurcada e continuou:

— Ah, sempre na moda… Já eu tenho que andar com esses trapos, porque a minha nova muda sumiu de meu armário. Nem imagino quem foi que me roubou. Mas se eu descobrir quem foi, ah, eu juro que engulo o infeliz, nem que seja um boi!

O sapo engoliu em seco e gaguejou:

— M-m-muito bem dito.

É por isso que hoje, quando o sapo põe uma roupa nova, come a velha (a exúvia, como chamam os cientistas) na mesma hora, e nós nunca a vemos. Porque, quando ele se distrai e deixa uma serpente vê-lo se trocar, ela vê que foi roubada e come o ladrão na mesma hora.

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