Fatima ben-Abder casou-se aos treze anos, como convinha a uma moça de seu povo, e traiu o marido aos quatorze, como não convinha. Presa, foi imediatamente condenada à morte. Porém, estava grávida — do amante, é claro. E as leis proibiam que ela fosse executada antes de dar à luz e amamentar seu filho por três meses.
Assim, Fatima pôde ficar na prisão durante todo o período da gravidez. Nasceu um menino, e três meses depois, sua execução foi marcada novamente. Mas foi necessário um novo adiamento. Porque o amante a visitara na prisão, e ela estava esperando outro filho.
No ano seguinte, para que a burla não se repetisse, o amante foi preso de forma a não poder visitar Fatima na prisão. Mas ela, enquanto amamentava o segundo rebento, seduziu um carcereiro, e com a terceira gravidez conseguiu mais uma vez escapar da morte.
No quarto ano, cuidaram para que somente eunucos vigiassem a cela onde estava Fatima. Porém, ela pediu para receber um dervixe, coisa que ninguém podia negar. E nem o santo homem resistiu ao charme da prisioneira, que depois de uma noite sendo instruída nas delícias do paraíso, estava mais uma vez pronta a exigir que a sua pena fosse adiada mais uma vez.
A essa altura, a fama de Fatima como amante extraordinária já era maior que qualquer ameaça. E ano após ano não faltava quem se dispusesse a arriscar a aventura de entrar na prisão para gozar de uma noite com ela, que assim ganhava filhos e tempo.
Quinze anos depois da sua primeira condenação, quando foi trancada numa torre inexpugnável, pediu para ver seu primeiro filho. A lei dava a ela esse direito, e foi do próprio primogênito que ela engravidou pela 16ª vez, naquele que foi considerado o mais infame dos seus estratagemas.
Fatima ben-Abder teve, ao longo de 21 anos, 26 filhos e filhas — contando-se os gêmeos. Decorrido o prazo de três vezes sete anos, ela deveria ser libertada, de acordo com a lei. Entretanto, morreu no parto do vigésimo-sétimo.
As mulheres que traem seus maridos e se destacam pelo engenho ou pela persuasão com que escapam do castigo são, naquele país, conhecidas como “fatimas”.

