Arquivo do dia: terça-feira, 9/1/2007

Dramatis Personæ (1): Fatima ben-Abder

Fatima ben-Abder casou-se aos treze anos, como convinha a uma moça de seu povo, e traiu o marido aos quatorze, como não convinha. Presa, foi imediatamente condenada à morte. Porém, estava grávida — do amante, é claro. E as leis proibiam que ela fosse executada antes de dar à luz e amamentar seu filho por três meses.

Assim, Fatima pôde ficar na prisão durante todo o período da gravidez. Nasceu um menino, e três meses depois, sua execução foi marcada novamente. Mas foi necessário um novo adiamento. Porque o amante a visitara na prisão, e ela estava esperando outro filho.

No ano seguinte, para que a burla não se repetisse, o amante foi preso de forma a não poder visitar Fatima na prisão. Mas ela, enquanto amamentava o segundo rebento, seduziu um carcereiro, e com a terceira gravidez conseguiu mais uma vez escapar da morte.

No quarto ano, cuidaram para que somente eunucos vigiassem a cela onde estava Fatima. Porém, ela pediu para receber um dervixe, coisa que ninguém podia negar. E nem o santo homem resistiu ao charme da prisioneira, que depois de uma noite sendo instruída nas delícias do paraíso, estava mais uma vez pronta a exigir que a sua pena fosse adiada mais uma vez.

A essa altura, a fama de Fatima como amante extraordinária já era maior que qualquer ameaça. E ano após ano não faltava quem se dispusesse a arriscar a aventura de entrar na prisão para gozar de uma noite com ela, que assim ganhava filhos e tempo.

Quinze anos depois da sua primeira condenação, quando foi trancada numa torre inexpugnável, pediu para ver seu primeiro filho. A lei dava a ela esse direito, e foi do próprio primogênito que ela engravidou pela 16ª vez, naquele que foi considerado o mais infame dos seus estratagemas.

Fatima ben-Abder teve, ao longo de 21 anos, 26 filhos e filhas — contando-se os gêmeos. Decorrido o prazo de três vezes sete anos, ela deveria ser libertada, de acordo com a lei. Entretanto, morreu no parto do vigésimo-sétimo.

As mulheres que traem seus maridos e se destacam pelo engenho ou pela persuasão com que escapam do castigo são, naquele país, conhecidas como “fatimas”.

Histórias reais (1): A roupa nova do Sapo

O sapo era o mais vaidoso dos animais. E a maior prova disso estava no seu imenso guarda-roupa. Ele tinha peles de todas as cores, padrões, texturas e formatos que se pudesse imaginar, e gabava-se de nunca usar duas iguais.

A serpente também vivia trocando de roupa. No seu caso, porém, coitada, era por necessidade. Ao contrário do sapo, que se movimentava aos saltos, ela precisava se arrastar na terra, entre pedras, galhos e folhas. O resultado é que volta e meia sua pele estava toda puída e rasgada, e precisava ser substituída.

Aconteceu que, mesmo assim, o sapo quis as roupas da cobra. E foi à sua casa pedir uma emprestada. Ela, porém, negou

— Vossa Sapiência já tem muitas roupas. Eu só uso as de que preciso — explicou a serpente, usando o tratamento respeitoso que na época se devia aos batráquios.

Ele, no entanto, insistiu. Afinal, mesmo com toda a sua imensa coleção, não se sentia satisfeito. Porque quem mais tem mais quer.

— É só um empréstimo. Quando quiser que eu devolva, a senhora me cobra.

A serpente se irritou com a teimosia e mais ainda com o trocadilho. Abriu a boca e mostrou as presas, que gotejavam veneno. O sapo, que realmente era de grande sapiência, saltou para longe dali. Mas depois aproveitou que a serpente estava dormindo e roubou o belo traje rajado novo que estava no seu guarda-roupa, aliás um guarda-peles.

A serpente acordou e deu pela falta da roupa, que pretendia trocar naquele mesmo dia. Desconfiada, foi à casa do sapo, que estava usando a pele da cobra.Quando ela bateu na porta, ele só teve tempo de tirar a roupa, virar pelo avesso e vestir de novo.

— Mas que pele estranha Vossa Sapiência está usando! — elogiou. — Mas parece até que está pelo avesso.

— É a última moda, não sabe? — explicou o sapo. — A tendência da estação.

A serpente sibilou com a língua bifurcada e continuou:

— Ah, sempre na moda… Já eu tenho que andar com esses trapos, porque a minha nova muda sumiu de meu armário. Nem imagino quem foi que me roubou. Mas se eu descobrir quem foi, ah, eu juro que engulo o infeliz, nem que seja um boi!

O sapo engoliu em seco e gaguejou:

— M-m-muito bem dito.

É por isso que hoje, quando o sapo põe uma roupa nova, come a velha (a exúvia, como chamam os cientistas) na mesma hora, e nós nunca a vemos. Porque, quando ele se distrai e deixa uma serpente vê-lo se trocar, ela vê que foi roubada e come o ladrão na mesma hora.