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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Dramatis Personæ (7): Agenor

No início, como todos nós, tinha uma ótima desculpa. Era a crise. Tudo estava pela hora da morte, custando os olhos da cara. E por isso criou coragem para matar seu primeiro cachorro.

A grito.

Poderia ter se tornado um honesto exterminador de baratas, ratos e cupins. Mas o gosto de sangue falou mais alto. E Agenor gritou mais alto, e gritando matou não só cachorros mas também sindicalistas, jornalistas, políticos, padres, amantes e quem mais tivesse a cabeça a prêmio.

Agenor só lamenta uma morte, puramente acidental. Foi a de uma mulher que o empolgou demais com suas carícias. Desde então só faz sexo amordaçado, por precaução.

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Histórias reais (4): Os dedos

Meneru, o pai de todos, fez do barro o primeiro homem. Mas faltava dar a vida. Então, deixou a sua obra num canto e foi buscar a vida.

Vieram a abelha, o gavião e a galinha. E ficaram admirando, curiosas, o homem que Meneru havia feito. O que mais as intrigou foi a mão, com os quatro dedos(*). E cada uma comeu um pedaço de um dedo: a abelha, o mínimo; o gavião, o anular; e a galinha, o indicador.

Meneru chegou de volta e deu a vida ao homem. Mas só então viu que os dedos, que tinha feito todos iguais, estavam cada um de um tamanho. Perguntou quem tinha feito aquilo e ninguém respondeu. Só o bem-te-vi, que naquela época já era alcagüete, denunciou as três.

Então, Meneru ensinou o homem a usar o polegar com o indicador para torcer o pescoço da galinha. Ensinou a fazer uma arapuca para pegar o gavião e a usar o anular para puxar a corda que o prendia na armadilha. E ensinou a usar o mínimo para tirar mel dos favos da abelha.

Só o dedo médio permaneceu intocado. Ele é dedicado a Meneru e nele os xamãs desenham os seus símbolos sagrados.

(*) Na língua em que se conta essa história originalmente, a palavra para “dedos” não inclui o polegar, e se refere apenas aos outros quatro.

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Dramatis Personæ (6): Ernesto Cruz

Desde a adolescência dedica-se a colecionar manchas antropomórficas. Já são mais de mil e oitocentas, com destaque para os 427 Cristos em diferentes tubérculos e legumes, 318 Virgens (a maioria, borrões em lenços) e pouco mais de cem Elvis em suportes diversos. A eles se somam centenas de outras com o formato de artistas, políticos, personagens históricos e outras com rostos genéricos ou não identificáveis.

Seu maior rival é um japonês de Osaka, que afirma ter uma coleção de mais de dois mil exemplares. “Metade é falsificação”, acusa Cruz.

Enquanto procura captar recursos para a fundação de um museu que abrigue todo o seu acervo, o colecionador acalenta outro objetivo, ainda mais ambicioso. Depois de descobrir num visitante uma semelhança espantosa com um rosto até então anônimo encontrado nos nódulos de um tronco de pinheiro, elaborou a teoria de que todo rosto da sua coleção pertence a alguém. E, da mesma forma, toda pessoa tem sua imagem replicada numa mancha em algum lugar. Seu futuro museu seria também um centro de estudos, um banco mundial de fisionomias.

“Para cada face humana, há uma batata”, afirma. Entretanto, a sua nunca apareceu. Talvez esteja em Osaka.

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Bestiário (6): Logobiontes

Uma corrente de ufólogos acredita que existem formas de vida fora da Terra, que porém jamais serão encontradas (ao menos não da forma que as buscamos hoje) e nunca entrarão em contato com o nosso planeta. Não por serem tímidas, esnobes ou medrosas, mas pela falta de uma interface adequada.

Estendendo o conceito de “vida” para qualquer estrutura auto-replicante, eles afirmam que idéias, ou formas lógicas, podem se combinar e gerar descendentes. E, sendo as leis matemáticas universais, válidas aqui como em Dwingeloo, nada impede que teses, equações e teoremas existam em galáxias distantes. Ou ali na esquina.

Logobiontes (estruturas lógicas com características de seres vivos), por sua natureza imaterial, poderiam se deslocar acima da velocidade da luz, e até mesmo surgir na Terra. A única forma de provar sua existência, porém, seria encontrar uma idéia sem autor. Os adeptos da teoria se dividem entre os que buscam a prova e os que acreditam que encontrá-la seria destruí-la.

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Folhinha (1): Santa Margarida da Hungria

Em Szigetvár, no sul da Hungria, a festa da padroeira é comemorada de forma peculiar. E a única forma de compreendê-la é pela biografia da santa.

Nascida na família real, no século XIII, ela abandonou os palácios para viver como monja, adotando uma vida de pobreza e sacrifícios. Sua única tristeza era não poder deixar o convento e partir em longas peregrinações a lugares sagrados. Resolveu o problema calculando a distância de sua cidade até o santuário desejado e transformando o total em milhas numa cota de ave-marias que devia rezar.

A técnica passou às outras freiras e em seguida aos leigos. Em Szigetvár, acredita-se que quem fizer um pedido a Santa Margarida hoje rezando todas as ave-marias correspondentes será atendido. 

É claro que quando o pedido não pode ser medido em milhas fica o cálculo fica mais difícil. Por isso mesmo existem os megszámozie, os “contadores de graças”, especialistas em transformar anseios em números. Quanto mais específico o desejo (“casar-me com Gyula, ter dois meninos e uma menina e morrer dormindo numa manhã de outono”), mais complexa a conta. Alguns profissionais (sim, pois o serviço é bem pago, e não em rezas) chegam a incluir frações decimais em sua cabala.

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Bestiário (5): Bicho-geométrico

Da mesma família do bicho-geográfico, este parasita também forma desenhos na pele do hospedeiro ao se deslocar por ela. Porém, ao contrário do verme comum, este cava seus túneis de forma a desenhar polígonos, curvas de Voss e seções cônicas.

A “National Mathematics Review” de setembro de 1986, depois de descrever casos de dodecágonos regulares e icoságonos estrelados, chega a afirmar que “um bicho-geométrico teria chegado muito próximo de resolver o problema da quadratura do círculo, na sola do pé de um bengali, mas infelizmente a morte do suporte impediu a sua continuidade”.

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Postais do Exílio (2): Mackeldorf-am-Donau

Nos arredores da cidade, às margens do Donau, fica o castelo onde teria vivido a dama cuja história inspirou o conto “Rapunzel”. Ali está, cercada por moitas de espinheiros, a imensa torre com sua janela solitária no alto. Arbustos de rabanetes florescem um pouco à frente.

Uma vez por ano, as moças da cidade cortam seus cabelos e com eles trançam uma só e longa corda, que prendem à janela da torre. Os rapazes tentam subir por ela, para ganhar um beijo de recompensa. Há sempre um ou outro que cai nos espinhos, o que não chega a prejudicar a festa.

Questionar a autenticidade da história é uma ofensa grave. Em Mackeldorf, ninguém se atreve a desafiar uma lenda.

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Dramatis Personæ (5): Seu Martinho

Conhece cada parafuso, porca e engrenagem do parque de diversões onde trabalha como zelador desde a época em que aquele ainda era o local preferido das crianças e dos casais de namorados. Durante décadas, acumulou não só o conhecimento técnico e as peculiaridades de cada aparelho mas também as lições de vida que ensinava aos raros aprendizes que pouco tempo permaneciam no serviço. “A vida”, dizia, “é como a roda-gigante: subindo ou descendo, você sempre deve olhar para a frente”.

Olhar para a frente era o que eles faziam. E iam embora, um a um, da mesma forma que os freqüentadores do parque, cada vez mais raros com o passar dos anos. Não que seu Martinho se importasse. “A vida”, comparava, “é como o carrossel: dá voltas e voltas e sempre chega de novo ao mesmo lugar”.

Numa dessas voltas seu Martinho faltou ao trabalho pela única vez. O coração, ao contrário dos brinquedos bem azeitados do parque, falhou. Mas no dia seguinte estava de volta, e filosofando. “A vida é como o trem-fantasma: tem um monte de coisas para assustar, mas nenhuma é perigosa de verdade”, afirmou.

Hoje o parque é que parece mal-assombrado, deserto mesmo nos domingos. Seu Martinho mantém a rotina. E vai criando coragem para andar na montanha russa, a única atração que nunca experimentou. Porque desconfia que ela é como a vida: às vezes você está em cima, às vezes embaixo. E, quando menos espera — acaba.

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Histórias reais (3): O direito de escolha

Blog for Choice Day - January 22, 2007 No começo, a Terra, mãe de todos, tinha filhos todos os dias. E o mundo se coalhava de seres brotados das suas entranhas. Gerar era sua única preocupação, e dela tanto nasciam as criaturas perfeitas, como o ovo, a salamandra e a esmeralda, quanto aberrações como o berne, o tédio e a mantícora (que um dia um herói matou, mas essa é outra história).

Um dia o Céu foi se queixar. Pediu que a Terra parasse de povoar o mundo. Mas ela se mostrou irredutível. Porque aquela era a sua natureza, explicou.

O Céu insistiu e conseguiu arrancar da Terra uma promessa. Dali em diante ela só geraria os filhos que desejasse e amasse. Ela aceitou a regra. E em seguida criou a mulher.

— Você também vai criar vida — anunciou. — E, da mesma forma que eu, deverá gerar apenas os filhos que quiser amar.

A mulher entendeu.

Mas por essa época a Terra já havia engendrado o preconceito, a ignorância e a intolerância. E eles convenceram a mulher de que seria obrigada a amar tudo o que gerasse, e não o contrário.

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Bestiário (4): Pingüins do deserto

Marcham em bandos pelas areias de Atacama. Semelhantes aos da Antártida, trocaram porém o fraque negro por outro castanho. O corpo é mais esbelto e esguio. E todos são cegos.

Na verdade, nem todos. Porque os filhotes nascem enxergando. Mas os constantes mergulhos nos lagos hipersalinizados da região, onde pescam seu sustento, afetam seus frágeis olhos de forma irreversível. Assim, os mais jovens sempre são vistos guiando os mais velhos.

Não adianta se recusar a crescer. Para todo jovem pingüim do deserto chega um dia em que é preciso lançar-se na água, começar a perder a visão e confiar na geração seguinte para lhe mostrar o caminho.

(Assim dizem os índios huacanes, cujas crianças usavam até os ritos de iniciação da puberdade um pequeno pingüim de barro como amuleto, hoje vendido à guisa de enfeite de geladeira nas lojas de artesanato para turistas.)

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A gente quer comida

Segredos entre três pessoas nunca são guardados. E é assim que eles aparecem em “Papel Manteiga”.

Antonia, a Bisa e Senhorita  se envolvem numa trama de mistérios que se torna insuportavelmente tensa até partir. Mas a catástrofe anunciada não acontece. Porque os segredos são escritos — melhor dizendo, embrulhados — em papel-manteiga. Translúcido, pedindo pra ser descoberto.

Ser revelado é a própria essência do segredo, tanto quanto a possibilidade de morrer é o que torna a vida preciosa e a delícia do amor está na sua fragilidade. E se a literatura exige a trama secreta, o subtexto que não se explicita, isso também só faz sentido se o leitor finalmente é admitido na cumplicidade.

Porque a narradora, com a autora e a co-autora, forma outro triângulo, que repete o primeiro como num espelho, ou numa homotetia. As três tecem uma conspiração que mais cedo ou mais tarde precisa ser traída. Antonia, a inconfidente, não resiste e sussurra ao leitor as dicas para entrar no segredo do livro: isto não é o que parece.

Ao contar suas aventuras como pupila da Senhorita, ela volta e meia escorrega e revela suas verdadeiras intenções: falar do amor e da literatura. No fim das contas, é a mesma coisa. Escritores e amantes devem saber cozinhar, amassar o pão, comer terra para aprender seu gosto. Levar seis vezes a massa à geladeira para fazer mil-folhas, a intrincada superposição de camadas que, transformadas em livro, permitem diversas leituras.

Por isso Senhorita não gosta dos livros de receita, os livros que seguem receitas, e muito menos dos seus leitores. Exigente no que se refere a pratos e poemas, não tolera a superficialidade disfarçada de requinte. Faz questão de que mesmo e principalmente a ficção tenha consistências de verdade.

A duras penas Antonia aprende com ela a diferença entre culinária e comida. “Papel Manteiga” é isso mesmo: comida que satisfaz, alimenta e delicia.

LISBÔA, Cristiane, e DAMBERG, Tatiana. Papel manteiga para embrulhar segredos: cartas culinárias. Memória Visual, 2006.

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Postais do Exílio (1): Ljubgrad

O Palácio da Justiça de Ljubgrad é guardado por uma colossal estátua de Têmis. Como todas as outras, ela mostra a deusa com a balança numa das mãos e a espada em outra. Porém, em vez da venda nos olhos, que mantém voluntariamente fechados, a daqui tem uma mordaça.

Achei que era uma referência aos séculos de governos tirânicos no país. Mas, enquanto eu tentava sem sucesso traduzir a inscrição de seu pedestal, com a ajuda do pequeno dicionário para viajantes, um velho se aproximou e me explicou, arranhando um alemão quase tão incompreensível quanto a placa de bronze:

— Porque dela esperamos ações, e não palavras.

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Bestiário (3): Linguado de Boecke

Descrito pela primeira vez em 1973 por Ewin van der Boecke, parece um linguado comum. Mas o naturalista holandês, ao analisar imagens de peixes que se camuflavam no fundo arenoso do mar para supreender suas presas, ficou espantado com a perfeição do disfarce de alguns deles.

Mesmo analisando as filmagens quadro a quadro, o cientista não conseguia perceber onde estava o peixe até o momento decisivo em que ele se revelava para abocanhar algum crustáceo incauto. Intrigado, partiu para a pesquisa de campo. E descobriu que, ao contrário de seus parentes, aquele linguado não usava de mimetismo. Ele não estava disfarçado no ambiente. Simplesmente aparecia do nada.

Boecke não teve como fugir da descoberta: era um linguado capaz de se teleportar.

Linguados de Boecke são os animais menos estudados do mar, e provavelmente de todo o planeta. Não por falta de interesse, mas por serem extremamente fugidios. Sempre que pressentem o perigo, desaparecem para surgir às vezes a quilômetros de distância.

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Dramatis Personæ (4): Wu Lao

Wu Lao nasceu numa família humilde e sem perspectivas na vida. Como vários meninos de sua idade, vislumbrou uma possibilidade de futuro confortável entrando para o corpo de eunucos da Cidade Proibida.

Como eunuco, Wu ascendeu rapidamente na hierarquia — ou ao menos tão rapidamente quanto era possível no burocrático império dos Ming. Em alguns anos tinha não apenas livre trânsito como grande poder sobre toda a ala norte, onde viviam as quatrocentas concubinas do Filho do Céu.

Caiu em desgraça, porém, quando descobriu-se que, secretamente, introduzia varões nos palácios onde os únicos homens permitidos eram o imperador e seus eunucos. Mesmo sob tortura, negou-se a confessar para qual das concubinas desempenhava funções de alcoviteiro.

O segredo só foi revelado após a sua morte nas masmorras. Foi então que descobriram que Wu Lao, na verdade, era uma mulher. E era para si mesma que procurava amantes. 

Wu Lin, pois este era seu verdadeiro nome, sabia que a única coisa pior que ser um pobre jovem chinês era ser uma pobre jovem chinesa.

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Histórias reais (2): A boca do tamanduá

Naquele tempo, o tamanduá era bem diferente. Sua boca era imensa, e cheia de dentes afiados, para devorar suas presas. Era a fera mais voraz da floresta e nenhum animal estava a salvo dele, a não ser, talvez, a onça.

Um dia os outros animais se juntaram para discutir a situação. O tapir reclamou porque sua cauda fora arrancada a dentadas (e por isso até hoje ele não tem rabo). O veado queixou-se de que quase toda a sua ninhada tinha virado comida de tamanduá, e só restara um (por isso o veado só tem um filho de cada vez). A arara escapara por pouco, e só porque podia voar, mas mesmo assim levou um corte tão feio que suas penas ficaram todas vermelhas de sangue, como ainda são.

Discutiram muito como resolver o problema. A preguiça, que não queria fazer muita coisa, sugeriu pedir ajuda à onça. Mas ninguém ousaria ir falar com ela, e se no fim o tamanduá matasse a onça o resultado seria pior ainda.

Foi então que a formiga disse:

— Eu resolvo.

Todos riram, porque a formiga era o menor e mais fraco dali. Mas ela não se importou e foi embora cuidar do seu plano.

A formiga sabia que, depois de carne, a comida preferida do tamanduá era jabuticaba. Por isso, no fim da temporada, guardou bem guardada a maior que conseguiu carregar. E ficou esperando agosto chegar.

Quando agosto chegou, deixou o seu tesouro bem à mostra no chão, no meio do caminho por onde passaria o tamanduá. Este, assim que viu a fruta, foi correndo pegá-la. Mas a formiga rolou a fruta para um buraco, antes que o bicho chegasse.

O tamanduá, louco para comer uma jabuticaba fora de época, enfiou a cabeça no buraco, que no entanto era fundo e se afunilava, de um jeito tal que a sua boca não chegava até a fruta.

Já estava desistindo quando a formiga perguntou:

— Ora, então o animal mais forte, valente e feroz vai desistir de comer uma iguaria só por causa do buraco que eu cavei?

Irritado, o tamanduá se sentiu ferido no seu orgulho. E enfiou a cabeça o mais fundo que pôde no buraco, até que ela ficou presa. A formiga não esperava outra coisa e começou a picar as gengivas da fera.

O tempo foi passando e nada de o tamanduá desistir. Pelo contrário, ficava ainda mais furioso e mais determinado a comer a jabuticaba de qualquer jeito. E a formiga ia picando sua boca, e as feridas gangrenavam, e os dentes foram caindo um por um. E o focinho ia ficando mais comprido, e a língua também, até ele ficar do jeito que é hoje.

Quando viu que tinha atingido seu objetivo, a formiga largou o tamanduá e carregou a jabuticaba para outro buraco mais fundo ainda.

Do lado de fora, o tatu, o tucano e a capivara riam sem parar. Porque o macaco tinha aproveitado para desfiar a bela cauda trançada do tamanduá, deixando um monte de pelos soltos.

Vendo que tinha sido enganado, o tamanduá finalmente tirou a cabeça do buraco. E a gargalhada foi maior ainda, porque sua boca tinha ficado fina e comprida e perdido todos os dentes.

Por isso até hoje ele persegue as formigas. E não quer mais saber de jabuticaba.

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Dramatis Personæ (3): Armando Lutz

Seu primeiro longa-metragem, “Traição” (1959), foi saudado como um raro caso de obra-prima de estréia. Desconcertante, envolvia o espectador nos dilemas dos seus personagens, criando um clima entre claustrofóbico e catártico.

A expectativa de crítica e público só não foi maior que a surpresa com “Traição” (1961). Era o mesmo filme — e no entanto era outro. À primeira vista apenas uma edição corrigida, mudava em detalhes cruciais, numa experiência desafiadora. Tanto que “Traição” (1964) bateu recordes de bilheteria. Era o esperado fim da trilogia, e mesmo quem já havia assistido várias vezes aos dois longas anteriores para comparar as diferenças não resistia à compulsão de ver novamente a mesma história, porém agora levada a caminhos apenas sugeridos antes.

O sucesso levou Lutz a lançar, no mesmo ano, “Traição”. Numa versão enxuta, o filme mais curto que jamais dirigiria, ele destilava nitidamente a mágoa da sua separação, na vida real, da atriz que estrelara as três produções anteriores. No seu lugar, escalou uma jovem que irritou os críticos por seu desempenho pífio.

O quarto “Traição” foi tão desastroso que o diretor se afastou das telas. Escreveu para publicações especializadas, viveu algum tempo no exterior, flertou com a luta armada e retornou apenas em 1971, com “Traição”. Era uma obra madura, não havia como deixar de reconhecer. Porém, faltava algo. A fórmula parecia estar esgotada. Aqueles que se empolgaram doze anos antes viam sinais de cansaço no diretor. E os mais jovens, que só conheciam o autor pela fama, se decepcionaram.

Em 1973, Lutz cometeu a maior ousadia de sua carreira, com “Traição”. Com exceção do título, dos nomes dos personagens e de alguns fiapos de roteiro, o filme nada tinha a ver com o resto da sua trajetória. Experimental ao extremo, foi recebido com iguais doses de amor e ódio.

Era o sopro de renovação necessário. Dali até 1980, foram mais quatro versões de “Traição”. Mais comportadas, é verdade, porém com o espírito dos primeiros anos, explorando sutis variações de câmera, luz e diálogo. Um deles chegou a ganhar reconhecimento em festivais europeus, o de 1978 ou de 1979 (biógrafos do cineasta divergem neste ponto, e nem mesmo a consulta a arquivos da época parece capaz de dirimir a dúvida; talvez tenham sido os dois). Casado pela segunda vez, pareceu ter encontrado a atriz perfeita para o papel principal, acabando com o rodízio iniciado em 1974.

Na década seguinte, o diretor tornou-se seletivo. Seus filmes, por isso mesmo, eram aguardados com ansiedade, mas acabavam atraindo apenas um punhado de cinéfilos. Os intervalos aumentavam à medida que cada novo “Traição” ficava cada vez mais parecido com o original de 1959.

Depois de oito anos sem filmar, Lutz volta agora com mais um filme, que ele garante ser o seu último. Contou com a ajuda de jovens cineastas e produtores, que o reverenciam como mestre. E conseguiu reunir todo o elenco original, inclusive a primeira mulher, com quem finalmente fez as pazes, para uma refilmagem fiel, quadro a quadro, da sua obra-prima. Todos os recursos técnicos foram explorados para recriar até mesmo as deficiências da época.

Quem viu “Traição” (2007) não tem dúvidas de que é o seu melhor filme.

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Bestiário (2): O lobo inexistente

Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios, compara a fé com a situação de um homem que diz ter um dragão em sua garagem. O dragão, porém, é invisível, incorpóreo, não pode ser detectado por meio algum, esquiva-se de qualquer tipo de abordagem objetiva. Em resumo, conclui Sagan, não há diferença alguma entre um dragão como esse e um dragão inexistente.

O astrônomo, porém, não conheceu o lobo inexistente.

Os primeiros registros do estranho animal aconteceram nas estepes siberianas, em meados do século passado. Alcatéias se formavam de forma atípica, sem a presença de um macho alfa que liderasse os outros. Zoólogos soviéticos quiseram ver nisso uma espécie de socialismo animal, uma ditadura do proletariado lupino.

Mas não era bem assim. Havia, na verdade, um líder — porém inexistente. Todos os lobos se comportavam como se ele estivesse lá, e não como numa comuna de poder compartilhado. O que levou a outra interpretação equivocada, desta vez de teólogos naturalistas: era uma afirmação, pela própria natureza, da necessidade de um Ser Superior.

Estudos posteriores, entretanto, comprovaram que os líderes invisíveis eram apenas uma das posições assumidas pelos lobos inexistentes. Como os seus semelhantes de carne e osso, havia jovens, filhotes, velhos. Machos e fêmeas. Smirakov chegou a encontrar uma alcatéia inteira inexistente, em 1987.

Ecologistas acreditam que a principal causa do declínio das populações de lobos na região é a ausência de lobos inexistentes, os mais sensíveis às mudanças no hábitat. O maior desafio agora é reproduzir o animal em cativeiro para reintroduzi-lo na natureza. Notícias sobre os projetos pioneiros são aguardadas ansiosamente, mas até agora não existe nenhuma.

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Bestiário (1): Gondava

Quando os portugueses chegaram a Goa, encontraram esta ave que os habitantes chamavam de g’ndaw, “solitária”. Um marinheiro da nau de Vasco da Gama quis levar uma delas a bordo. Mas o navegador achou que seu canto triste, de quem sempre procura o que nunca vai encontrar, seria de mau agouro — e vetou a mascote.

A gondava vive só. Nunca procura outras de sua espécie, nem mesmo para o acasalamento. A maioria das fêmeas é capaz de procriar sem necessidade de fecundação. O filhote, seja qual for o sexo, abandona o ninho após quatro meses, ainda não totalmente amadurecido, e nunca mais vê a mãe.

 Às vezes, porém, acontece de um par de gondavas se encontrar nas praias ou nos rochedos da Índia. Quando se vêem, duas metades capazes de se completar, calam seu canto, aquele mesmo que o Luso não queria ouvir. E perdem-se em contemplação mútua, como narcisos sem espelho, num estado de fascinação tal que não mais se alimentam, nem procuram abrigo, nem fogem dos predadores. E ali mesmo morrem.

O canto da gondava, diz um provérbio konkani, é triste não por ela ser solitária. Mas sim porque não sabe amar sem morrer.

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Dramatis Personæ (2)

Arruinou-se por causa de uma mulher e um cavalo.

Apostou na mulher errada; perdeu tudo e o cavalo o abandonou.

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Dramatis Personæ (1): Fatima ben-Abder

Fatima ben-Abder casou-se aos treze anos, como convinha a uma moça de seu povo, e traiu o marido aos quatorze, como não convinha. Presa, foi imediatamente condenada à morte. Porém, estava grávida — do amante, é claro. E as leis proibiam que ela fosse executada antes de dar à luz e amamentar seu filho por três meses.

Assim, Fatima pôde ficar na prisão durante todo o período da gravidez. Nasceu um menino, e três meses depois, sua execução foi marcada novamente. Mas foi necessário um novo adiamento. Porque o amante a visitara na prisão, e ela estava esperando outro filho.

No ano seguinte, para que a burla não se repetisse, o amante foi preso de forma a não poder visitar Fatima na prisão. Mas ela, enquanto amamentava o segundo rebento, seduziu um carcereiro, e com a terceira gravidez conseguiu mais uma vez escapar da morte.

No quarto ano, cuidaram para que somente eunucos vigiassem a cela onde estava Fatima. Porém, ela pediu para receber um dervixe, coisa que ninguém podia negar. E nem o santo homem resistiu ao charme da prisioneira, que depois de uma noite sendo instruída nas delícias do paraíso, estava mais uma vez pronta a exigir que a sua pena fosse adiada mais uma vez.

A essa altura, a fama de Fatima como amante extraordinária já era maior que qualquer ameaça. E ano após ano não faltava quem se dispusesse a arriscar a aventura de entrar na prisão para gozar de uma noite com ela, que assim ganhava filhos e tempo.

Quinze anos depois da sua primeira condenação, quando foi trancada numa torre inexpugnável, pediu para ver seu primeiro filho. A lei dava a ela esse direito, e foi do próprio primogênito que ela engravidou pela 16ª vez, naquele que foi considerado o mais infame dos seus estratagemas.

Fatima ben-Abder teve, ao longo de 21 anos, 26 filhos e filhas — contando-se os gêmeos. Decorrido o prazo de três vezes sete anos, ela deveria ser libertada, de acordo com a lei. Entretanto, morreu no parto do vigésimo-sétimo.

As mulheres que traem seus maridos e se destacam pelo engenho ou pela persuasão com que escapam do castigo são, naquele país, conhecidas como “fatimas”.

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Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

Marcos Faria

 

Janeiro 2007
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E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.