Especiarias, tecidos, jóias, alucinógenos, cornucópias, animais em extinção (vivos, empalhados ou em cortes nobres), corzumas, jornais do futuro, rapazes, moças, cogumelos, um país inteiro, relíquias de santos, amuletos, dentaduras, habeas corpi, figos colhidos da figueira sob cuja sombra Buda chorou, ratoeiras, esperanças, máquinas de descalçar chinelos, moedas antigas, piolhos amestrados, venenos e seus antídotos. Eu desisti de tentar imaginar alguma coisa que não esteja exposta no Mercado de Manamotamo.
A única coisa que você nunca vai encontrar por lá é alguém comprando ou vendendo mercadorias. Porque isso é proibido pelos milenares estatutos do lugar.
Quem quiser fazer negócios, que os faça da porta para fora. O Mercado de Manamotamo existe apenas para se ver, tocar, cheirar, provar. E desejar.
A independência de Kanuk foi resultado da guerra pelo controle de suas reservas de estrume de focas. Depois de séculos ignorando a existência da ilha e de seus habitantes, que viviam abandonados à própria sorte, as duas potências rivais passaram a considerar o território uma jóia a ser cobiçada quando os excrementos alcançaram altos valores no mercado de fertilizantes.
Veio então a guerra, cada lado pretendendo a soberania sobre a ilha. Mas depois de muitos anos de morte e destruição os kanukianos mostraram sua sabedoria política ao negociar a paz, comprometendo-se a fornecer o estrume para os dois lados em troca do reconhecimento da independência.
Assim, o dia do armistício é uma festa cívica em Kanuk. E os kanukianos, principalmente as crianças, comemoram recolhendo bolas de estrume seco para guerrear com elas nas ruas da capital.
“Rações apropriadas para um filhote de tiranossauro. Os cuidados para a criação de dodôs em cativeiro. Como adestrar um Eohippus. O aquário ideal para um celacanto.
O fato de uma espécie estar extinta não impede que ela proporcione, ao menos teoricamente, bons animais de estimação. Assim, o Guia dos mascotes extintos preenche uma carência ao tirar todas as dúvidas sobre os melhores amigos do homem pré-histórico.”
De todos os (muitos) carimbos com que trabalho, o mais enigmático é, sem dúvida, o que diz “EM BRANCO”. Nunca entendi para que serve.
Que ignorante, vocês dirão. É óbvio que ele serve para dizer que aquele papel está em branco. E que, se não estiver, é porque alguma coisa foi escrita depois de a folha ser anexada ao processo. Faz sentido.
Tudo bem. Mas e se alguém, por engano ou má-fé, carimbar “EM BRANCO” numa folha que não está em branco? O seu conteúdo é automaticamente anulado? Como garantir que aquela folha que hoje está em branco não será modificada por alguém que, mais tarde, resolvar impugnar o carimbo?
Algum processualista deve ser capaz de me explicar isso. Mas a dúvida ficou ainda mais grave na semana passada, quando eu carimbei por engano uma folha em branco que já estava carimbada.
Reparem no paradoxo. O segundo carimbo atesta que a folha estava em branco. Assim, anula o primeiro. E, portanto, diz que havia algum conteúdo ali.
É por isso que fiquei aliviado ontem, quando o carimbo de “EM BRANCO” quebrou. Você tenta carimbar e não aparece nada. Fica em branco. Deve ser o primeiro carimbo metalingüístico na história da burocracia brasileira.
Foi professora de inglês durante toda a juventude. Estudou italiano e russo, duas línguas que também passou a lecionar. Como toda poliglota, ficava admirada diante das semelhanças e diferenças entre os idiomas, sonhando com uma utopia qualquer de comunicação universal.
Mas não aderiu ao esperantismo. Em vez disso, descobriu algo ainda melhor.
Foi num dia em que almoçava num restaurante fast-food no centro da cidade. Estava sozinha e começou a se irritar com o barulho — aquela mistura caótica de vozes, formando um burburinho cinzento. Mais incompreensível que qualquer língua estrangeira, pensou. E foi então que a luz se acendeu em sua mente. Porque, mesmo naquele ruído, ela às vezes distinguia algumas palavras, às vezes bons trechos de frases ditas por alguém.
Uma língua estrangeira é como um ruído, concluiu. Basta filtrar o que é excesso e as palavras surgirão.
Não foi ao curso para as aulas da tarde. Ao invés disso, comprou uma passagem para Budapeste. Lá, aplicando o seu método de filtragem idiomática ao mesmo tempo que o desenvolvia, em poucos dias entendia húngaro perfeitamente. Hoje viaja pelo mundo tentando divulgar sua técnica.
A maior dificuldade que teve foi com o coreano, língua extremamente sintética. Mas depois de um mês de tentativas mal sucedidas, percebeu que naquele caso deveria também filtrar os silêncios. Hoje fala fluentemente.
Pouca gente conhece a comemoração, mas ela foi instituída há dois anos no Rio de Janeiro pelo vereador Miltão da Serra (PLR). Na sua exposição de motivos, o edil argumentou que o malabarismo de rua “conssubstancia (sic) a criatividade carioca e a solidariedade do povo”.
O dia 7 de julho foi escolhido por ter sido a data em que, no ano de 1999, o mochileiro argentino Jaime Herrera foi visto pela primeira vez fazendo malabarismo num cruzamento de Copacabana para tentar ganhar uns trocados e garantir mais alguns dias de permanência no Rio. Os meninos que o observaram aprenderam rapidamente.
Também é de Miltão da Serra o projeto (ainda em tramitação na Câmara) que institui os malabares como disciplina obrigatória no currículo das escolas de Primeiro Grau da rede municipal de ensino.
O Maurits é o único rio circular do mundo. Ao contrário dos outros, ele não deságua no mar, num lago ou num rio maior.
Nasce junto ao Mosteiro de Mauk, seguindo seu curso para nordeste. Contorna as montanhas de Friesland, virando para noroeste, e começa a descer de volta, descrevendo um arco rumo ao sul, onde deságua sobre si mesmo.
A anedota que atribui o nome e o prato a John Montagu (1718-1792), o Conde de Sandwich, acabou “pegando” e convencendo a maioria das pessoas. Mas o sanduíche original é francês.
Na Idade Média, o monge São Duílio se destacou por criticar duramente aqueles que não davam nada mais que sobras de pão duro — muitas vezes, bolorento — aos mendicantes. Dizia o santo que não havia virtude em dar apenas o que ninguém quer. Foi ele quem passou a pegar os pães dados aos pobres, cortá-los ao meio e pôr uma fatia de presunto ou rodelas de salame entre as duas metades.
Anos depois da sua morte, o “lanchinho de São Duílio” (Saint Douiche, como era chamado no languedoc) continuou sendo popular. E só decaiu após a Guerra dos Cem Anos, durante a fome que se seguiu ao conflito.
Mas foi justamente a guerra que permitiu a sobrevivência do saint-douiche. Porque os soldados ingleses gostaram da idéia — não tanto a parte de reforçar a merenda dos mendigos, e sim a de rechear o pão. E foi na Inglaterra que o sanduíche chegou aos tempos modernos, já com a grafia devidamente anglicizada.
A pretensa ligação com o Conde de Sandwich nasceu provavelmente nos Estados Unidos, durante a Guerra de Independência. Montagu era o almirante da Armada britânica e, no conflito, ganhou fama de incompetente. Espalhar que a maior conquista do comandante inimigo era preparar lanches produziu um efeito moral considerável.
Foi com o pangotyr que o homem aprendeu a tomar chá.
Depois de catar e macerar algumas folhas da planta, o pangotyr enchia de água seu bico — semelhante ao do pelicano — e ia para a borda da cratera do Krakatoa e de outros vulcões de Java, a única ilha que habitava. E ali ficava, com apenas o bico, extremamente resistente ao calor, exposto aos vapores incandescentes, até que a mistura fervesse.
Os javaneses que primeiro observaram o pássaro não deram muita importância ao seu estranho hábito. Mas os mercadores chineses experimentaram a infusão das folhas e se encantaram.
Foram eles, em grande parte, os responsáveis pela extinção do pangotyr. A coleta predatória de plantas de chá para abastecer o mercado chinês praticamente acabou com o alimento da espécie. Os incêndios que devastaram metade da ilha durante a Guerra dos Três Sultões (1087-1123) terminaram o trabalho. Quando Marco Polo esteve em Catai, o pangotyr já era apenas uma história.
Dois exemplares levados ao Imperador foram empalhados. Eles estão até hoje num museu na Cidade Proibida, em Pequim.
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 23/6 -a historia do cavalo almanaque
Nunca ouvi falar de um cavalo com esse nome.
Terça, 24/6 -anedotas sobre diamantes
Era uma vez um diamante português chamado Manoel e outro diamante ortuguês chamado Joaquim. O Manoel perguntou ao Joaquim por que ele usava um lápis atrás da orelha. E o Joaquim respondeu: “É para fazeire a conta de cabeça, ó pá”.
Quarta, 25/6 -como montar uma colonia de formigas
Primeiro, convença todo mundo de que a formiga rainha é uma ditadora cruel e sanguinária. Então, invada o formigueiro. Mate todos que resistirem. Pronto, agora ele é sua colônia. De preferência, escolha um que produza petróleo.
Quinta, 26/6 -palavra encoxar em ingles
Encoxation.
Sexta, 27/6 -baianos em tampere
Pode procurar que tem. Se não tiver, tem cearense.
E desta vez temos novidade na quinta posição! As mais votadas da semana são:
É natural que a primeira avaliação de desempenho provoque um friozinho na barriga. E um sentimento de alívio depois de passar por ela — e bem. Mas depois vem a constatação de que, por melhor que você tenha se saído, ainda não passou do primeiro degrau na sua escalada.
Porque a verdadeira medida de poder e prestígio não está no valor (ou mesmo no percentual) da sua Gratificação de Desempenho. Nem nos cargos e suas siglas esotéricas. Há coisas muito mais importantes. Coisas que você só aprende a perceber (e valorizar) quando entra para o serviço público.
Não se engane: o real parâmetro de poder e prestígio está nos perfuradores de papel.
O meu, por exemplo. É pequeno, daqueles que furam apenas meia dúzia de folhas de cada vez. No máximo, oito. Oito folhas! Não é nada num processo. O que fazer quando chegam aquelas cópias de autos com dezenas de documentos anexos? Ainda por cima, está velhinho e não funciona muito bem. O furo de cima sai certinho, mas o de baixo… Tem que ficar apertando e reapertando para ter certeza de que os papéis vão sair prontos para serem arquivados.
Mas basta olhar para a mesa do lado e ele está lá. Um legítimo 565000 Maped. Prata! Um verdadeiro rolls-royce dos perfuradores. Cento e cinqüenta folhas, sem nenhum esforço — eu aposto que a lâmina é de liga de titânio.
Por enquanto, só me resta suspirar. Mas chefias vão e vêm, cargos de confiança mudam, a maré vira, e um dia aquela mesa pode ficar vazia.
Em Balacan, o mais tradicional local de disputas de turfe do mundo¹, hoje é o dia de uma prova muito especial. O único páreo da noite é uma carreira de 100 metros. E nela os humanos é que carregam os cavalos².
A tradição começou no século XII, quando o bispo da cidade quis erradicar as corridas. Como o édito eclesiástico proibia apenas aquelas em que jóqueis montassem “cavalos, éguas, mulas, asnos, jumentos, touros ou qualquer outro animal”, os aficionados mais radicais encontraram assim uma forma de contornar a proibição.
A lei que proibia as corridas foi suspensa em 25 de junho de 1139. Mas a diversão alternativa se manteve e virou tradição, servindo também como forma de comemorar a vitória dos turfistas.
O vencedor do Dia do Potro ganha o privilégio de nunca poder ser usado como montaria em corridas e passa o resto da sua vida como reprodutor.
¹ Há indícios de que as apostas em corridas na cidade começaram ainda nos tempos do Império Romano.
² Sempre potros machos de um ano.
E, como não poderia deixar de ser, recebi um link para o tal vídeo comparando a burocracia japonesa com a brasileira. Quem é a melhor? Prace your bets NOW!
Só uma dica: do outro lado do mundo, são séculos de tradição de funcionalismo sob o comando da Casa Imperial.
Tudo bem. Mas o que inicialmente parece um desprestígio para o funcionalismo nacional é apenas uma prova de como somos capazes de nos virar mesmo sem as mesmas condições materiais. Ou alguém acha que meu carimbo agüenta tantas carimbadas sem ter que voltar na almofada de tinta?
Pintores medievais não dispunham da facilidade de hoje em dia para comprar telas prontas, no tamanho e na medida que quisessem. Normalmente trabalhavam em pedaços de tecido, abertos sobre uma mesa ou mesmo sobre o chão. O resultado da pintura era a ars mol(lis), ou “arte mole”.
Se estivesse satisfeito com o resultado, o artista tratava de apresentá-lo de uma forma mais bem acabada, em que o ondulado do tecido não prejudicasse a apreciação do seu trabalho. A tela era então presa em qualquer suporte disponível, tornando-se ars dura, “arte dura”.
Os primeiros quadros de madeira feitos especialmente para este fim foram chamados de mol dura factor, ou seja, o que transformava a arte mole, tornando-a fixa. E daí saiu a palavra moldura.
As melhores buscas da semana entre os visitantes do Almanaque:
Segunda, 16/6 -significado de sonho com bacterias
significado de sonhar com camisa de força Terça, 17/6 -o significado de sonhar com lacraia Quarta, 18/6 -sonhar com tigre de bengala
siginificado de sonhar com gorila Quinta, 19/6 -sonhar com tigre branco Sexta, 20/6 -sonhar com minotauro
o que significa sonhar com chifre
Procurem um psicanalista. Principalmente se vocês todos forem a mesma pessoa.
Quando se começou a falar sobre vírus informáticos, houve uma certa confusão. Muita gente pensou que era uma nova variedade de camistros. Estes, porém, são outra coisa: parasitas informacionais.
Claro que nem sempre foi assim. Há alguns milhares de anos, os camistros efetivamente produziam a informação que consumiam. Restam alguns fósseis de catálogos camistrianos, encontrados em locais onde provavelmente viviam pequenas colônias.
Os hábitos mudaram quando surgiu a escrita humana. Foi então que os camistros passaram a se alimentar da informação produzida pelos homens. Com a invenção do papel, o parasitismo se tornou a única fonte de alimentação de toda a espécie, que hoje não consegue sobreviver de outra forma.
Burocratas foram sempre as maiores vítimas dos camistros. Para proteger seus dados, passaram a aumentar a redundância de seus registros, mantendo assim as informações necessárias mesmo em tempos de praga.
Hoje os camistros podem ser vistos em bandos junto a antenas de TV e torres de telefonia celular. A ICANN teme que a propagação de uma variedade especialmente daninha a transferências de dados por banda larga possa inviabilizar a internet até 2013.
Ele não tem corpo nem cabeça. Apenas uma boca. Nada de lábios, dentes, nem língua. Só uma boca. Ele é só uma boca.
O fato de não precisar nutrir um estômago permitiria supor que o Magul não precisa comer. Talvez não precise. Mas é só o que ele faz. Come tudo o que encontra pela frente, e o que passa pela sua boca desaparece no seu corpo inexistente.
O Magul não pode ser aprisionado, porque comeria a sua jaula. Não pode ser morto, porque devoraria qualquer arma, veneno ou predador como se fosse apenas mais um prato.
A única maneira de se ver livre dele é encontrando outro e deixando que os dois se devorem. Como as duas cobras que se comem até as duas desaparecerem.
Numa cidade tão pacata e ordeira, quase ninguém pensaria em abrir uma academia de defesa pessoal. Mesmo assim, houve um pioneiro que tomou a ousada iniciativa.
Quase foi à falência.
Só se salvou porque, quando o fracasso era iminente, vislumbrou uma idéia genial. E abriu do outro lado da rua uma escola de ofensa pessoal.
Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.