Dramatis Personæ (202): Andur, o gênio imbecil

Quando o sábio rei Suleiman (Alá, porém, é mais sábio) aprisionou os gênios, forçando-os à obediência, houve apenas um que lhe escapou. Tratava-se, justamente, do mais poderoso entre eles, o mais astuto, o mais clarividente. Chamava-se Andur, e rivalizava em sabedoria com o próprio Suleiman. Por isso mesmo, percebeu que seria inútil tentar enfrentá-lo, e que mais valia ocultar-se aos seus olhos.

Andur, então, tomou a forma que jamais se poderia esperar de um gênio, ou seja, a de um imbecil. Tornou-se o mais estúpido dos homens, alvo de zombaria até mesmo dos escravos.

Tanto tempo permaneceu assim, e tanto se dedicou a parecer um imbecil, que enfim se tornou incapaz do mais básico raciocínio. E mesmo depois da morte de Suleiman (que Alá o tenha em sua glória) não foi capaz de abandonar seu disfarce, por ser obtuso demais para perceber que já não corria perigo. Vaga até hoje pelo mundo, penando sua estupidez.

Dizem que, na verdade, Andur nunca escapou da armadilha de Suleiman, que assim o condenou a ser prisioneiro da própria astúcia.

Dramatis Personæ (201): Luciano, o desesperantista

Servi-me da inabilidade com o francês para justificar as palavras presas na garganta, as palavras repetidas, gagas, a falta de vocabulário, a falta do que dizer.
LEVY, Tatiana Salem. Dois rios. Rio de Janeiro: Record, 2011.

Luciano chegou à conclusão de que o mal das relações humanas não é a falta de diálogo, mas o excesso dele. Se todos reconhecessem a incapacidade de comunicação, a necessária intradutibilidade dos sentimentos e ideias de cada um numa linguagem coletiva, todos viveriam em paz, sabendo que o discurso do outro não é o que se entende dele, e sim um universo à parte, do qual só se pode apreender (na melhor das hipóteses) uma analogia.

Na contramão de Zamenhof, passou a defender que cada pessoa tenha uma linguagem própria, não compartilhada com mais ninguém, para que toda conversa seja obrigatoriamente uma tradução.

Mitolorgias (1): Arjuna

E se Arjuna, depois do encontro com o mais sutil dos deuses, descesse a montanha convencido a entrar na batalha com sua fúria invencível; e se, armadura nos ombros, lança em punho, o fogo brilhando em seus olhos ao avistar os inimigos, um clarão interrompesse a sua carga por uma fração de segundo que durasse uma vida inteira; e se, durante essa fração de segundo, esse mesmo Arjuna, ciente da superioridade do agir correto sobre a inação, percebesse que naquele momento não era ele quem agia, e sim era a guerra que agia nele, por meio do seu corpo; e se Krishna, afinal, estivesse errado, e ele não fosse um guerreiro; e se o ser guerreiro fosse definido pelas suas ações, e não o contrário; e se deixar-se lutar fosse portanto inação, e o agir correto fosse parar onde estava, deitando ao chão lança e armadura?

Placas

Uma coisa que acho legal nas placas com os nomes das ruas no Rio de Janeiro é a informação, em letras miúdas, sobre quem é a pessoa ou coisa homenageada. Por exemplo: quem entra na Rua Buarque de Macedo, no Flamengo (ou também quem lembra dos versos: Recife. Ponte Buarque de Macedo./Eu, indo em direção à casa do Agra,/Assombrado com a minha sombra magra,/Pensava no Destino, e tinha medo!), pode sentir a curiosidade de quem foi ele. Político? Astronauta? Jogador de futebol? Nem precisa consultar a Wikipedia, é só olhar a placa:

Pronto: jornalista. Antigamente isso dava prestígio, vejam só.

Essa informação vai ser mais importante ainda, imagino, para as futuras gerações, quando as ruas poderão ter recebido os nomes de celebridades pop ou outras opções de memória ainda mais volátil. Por exemplo:

Ou então:

Ou ainda:

E até:

Postais do Exílio (131): Tormelina

Em Tormelina construíram um vulcão artificial.

Não um reles brinquedo como o “Vesúvio alemão” de Leopold III von Anhalt-Dessau (1740-1817), cujas explosões eram criadas por pirotécnicos. Um vulcão autêntico, com um canal escavado do topo de uma colina até encontrar o magma subterrâneo.

A primeira erupção foi um sucesso. Aliás, todas as outras também, tecnicamente falando. Infelizmente, porém, não foram o suficiente para atrair turistas no volume que fora planejado quando se aprovou o projeto do vulcão.

Atualmente, a prefeitura de Tormelina estuda a hipótese de um festival à beira da cratera, com sacrifício de virgens. Provavelmente com virgindade também artificial.

Criptoetimologia (77): Trauma

Quando os visigodos comandados pelo rei Alarico I saquearam Roma, no ano 410, a palavra mais ouvida nas ruas da grande cidade era draumaz. Eram os gritos dos bárbaros, proclamando sua alegria pela conquista. A palavra significava “festa” (e também “sonho”, tendo originado dream em inglês e Traum em alemão).

Para os romanos, porém, o sonho era pesadelo e a festa era destruição. E, nos anos que se seguiram, trauma ficou sendo o nome de tudo o que fratura o corpo e o espírito.

Biblioteca de Babel (124): Cântico de Bálquis

Enquanto o Cântico de Salomão (também conhecido como Cântico dos Cânticos, ou Cantar dos Cantares, ou simplesmente o Cantar) goza de reputação até exagerada, a sua resposta, escrita pela Rainha de sabá, permaneceu ignorada até recentemente, quando foi descoberta a sua última cópia autêntica.

Mais explícito sexualmente e portanto mais poético que o texto bíblico, o Cântico de Bálquis troca as metáforas do amor para usar o amor como metáfora.

Embora tenha permanecido oculto por séculos, é evidente que ao menos  partes dele chegaram à Europa na Antiguidade, provavelmente perdidas no incêndio da Biblioteca de Alexandria. Alguns versos certamente foram parafraseados por Safo.