Placas

Uma coisa que acho legal nas placas com os nomes das ruas no Rio de Janeiro é a informação, em letras miúdas, sobre quem é a pessoa ou coisa homenageada. Por exemplo: quem entra na Rua Buarque de Macedo, no Flamengo (ou também quem lembra dos versos: Recife. Ponte Buarque de Macedo./Eu, indo em direção à casa do Agra,/Assombrado com a minha sombra magra,/Pensava no Destino, e tinha medo!), pode sentir a curiosidade de quem foi ele. Político? Astronauta? Jogador de futebol? Nem precisa consultar a Wikipedia, é só olhar a placa:

Pronto: jornalista. Antigamente isso dava prestígio, vejam só.

Essa informação vai ser mais importante ainda, imagino, para as futuras gerações, quando as ruas poderão ter recebido os nomes de celebridades pop ou outras opções de memória ainda mais volátil. Por exemplo:

Ou então:

Ou ainda:

E até:

Postais do Exílio (131): Tormelina

Em Tormelina construíram um vulcão artificial.

Não um reles brinquedo como o “Vesúvio alemão” de Leopold III von Anhalt-Dessau (1740-1817), cujas explosões eram criadas por pirotécnicos. Um vulcão autêntico, com um canal escavado do topo de uma colina até encontrar o magma subterrâneo.

A primeira erupção foi um sucesso. Aliás, todas as outras também, tecnicamente falando. Infelizmente, porém, não foram o suficiente para atrair turistas no volume que fora planejado quando se aprovou o projeto do vulcão.

Atualmente, a prefeitura de Tormelina estuda a hipótese de um festival à beira da cratera, com sacrifício de virgens. Provavelmente com virgindade também artificial.

Criptoetimologia (77): Trauma

Quando os visigodos comandados pelo rei Alarico I saquearam Roma, no ano 410, a palavra mais ouvida nas ruas da grande cidade era draumaz. Eram os gritos dos bárbaros, proclamando sua alegria pela conquista. A palavra significava “festa” (e também “sonho”, tendo originado dream em inglês e Traum em alemão).

Para os romanos, porém, o sonho era pesadelo e a festa era destruição. E, nos anos que se seguiram, trauma ficou sendo o nome de tudo o que fratura o corpo e o espírito.

Biblioteca de Babel (124): Cântico de Bálquis

Enquanto o Cântico de Salomão (também conhecido como Cântico dos Cânticos, ou Cantar dos Cantares, ou simplesmente o Cantar) goza de reputação até exagerada, a sua resposta, escrita pela Rainha de sabá, permaneceu ignorada até recentemente, quando foi descoberta a sua última cópia autêntica.

Mais explícito sexualmente e portanto mais poético que o texto bíblico, o Cântico de Bálquis troca as metáforas do amor para usar o amor como metáfora.

Embora tenha permanecido oculto por séculos, é evidente que ao menos  partes dele chegaram à Europa na Antiguidade, provavelmente perdidas no incêndio da Biblioteca de Alexandria. Alguns versos certamente foram parafraseados por Safo.

Bestiário (155): Tartaruga sem cabeça

É incrível, mas muita gente ainda duvida da existência da tartaruga-sem-cabeça. Por mais espécimes que sejam apresentados, os acefaloqueloniocéticos insistem que são apenas tartarugas comuns, que apenas estão com a cabeça escondida dentro da carapaça, admitindo no máximo que sejam tartarugas tímidas. Como se a tartaruga-tímida não fosse uma espécie inteiramente diferente, aliás.

É verdade que algumas vezes houve fraudes, com tartarugas comuns sendo apresentadas como acéfalas. Fica na conta da precipitação em se comprovar a existência deste animal tão raro. Ainda mais porque, em muitos casos, a tartaruga-sem-cabeça também não tem patas, o que torna ainda mais difícil encontrá-la.

Criptoetimologia (76): Fezes

Fēcī, fēcistī, fēcit, fēcimus, fēcistis, fēcērunt. É a conjugação do verbo latino faciō (fazer) no pretérito perfeito ativo. De um processo meio eufemístico, meio metonímico, o que alguém fez (fēcit) virou sinônimo de excreção. Ou seja: em Roma, bastava dizer-se que “fez”, sem precisar completar com o quê.

Dramatis Personæ (200): Cordélia

Dizem alguns críticos que ela já não sonha mais como antes. De fato, já vão longe os dias (e especialmente as noites) em que lotava teatros e auditórios, reunindo multidões para vê-la deitar-se numa cama, adormecer e sonhar.

Segundo os mesmos críticos, o problema foi que os sonhos de Cordélia começaram a ficar repetitivos. O da queda no abismo de rabanadas, por exemplo. Embora continue sendo impressionante, já perdeu boa parte do impacto para o público. E os mais jovens parecem não se interessar tanto pela sua arte, agora que novas tecnologias permitem programar sonhos e compartilhá-los online.

A melhor resposta, porém, Cordélia continua dando no palco. Mês passado, por exemplo, teve um pesadelo que todos consideraram um dos três mais aterrorizantes da sua carreira, para dizer o mínimo. Prova de que não está acabada, garantem os fãs: apenas mais cuidadosa, como qualquer artista na maturidade.