Bestiário (156): Gato-agrícola

O gato-agrícola é o único animal conhecido (além do homem) a cultivar plantas. Não para a sua alimentação, porém, já que, como todos os outros felinos, esse gato selvagem é exclusivamente carnívoro. O seu objetivo é outro.

No território de todo gato-agrícola há um pequeno trecho dedicado à plantação de erva-de-gato (Nepeta catharia), cujas folhas e flores tem efeito alucinógeno sobre gatos em geral. O controle das plantas, inclusive, é fator determinante nas suas disputas territoriais e nos seus rituais de acasalamento.

No outono, o gato-agrícola recolhe cuidadosamente as sementes caídas e as enterra, garantindo a continuidade do seu suprimento. Além disso, defende ferozmente as mudas, às quais parece dar mais valor até do que ao próprio território de caça.

Postais do Exílio (132): Zoológico de Mambilena

Em Mambilena os protestos contra a manutenção de animais selvagens trancafiados chocaram-se com a popularidade de seu jardim zoológico. Foi preciso encontrar uma solução que agradasse a todos. E assim os animais foram gradualmente substituídos por robôs. São réplicas perfeitas de tigres, leões, escaravelhos, raposas, mantícoras, elefantes, harpias, dodôs, jacarés e outros bichos, não apenas indistinguíveis na forma como também programados para imitar o comportamento e os sons dos originais. Até os cheiros sintéticos que exalam são idênticos aos naturais.

Metade da população, porém, não acredita que zoóides tão perfeitos possam existir, e acusam o Zôo de manter animais reais em cativeiro. A outra metade diz que, mesmo com tanta perfeição, não é a mesma coisa olhar para uma jaula sabendo que do outro lado está um robô. Desta forma, todos permanecem insatisfeitos.

Mitolorgias (2): Eurídice

- Olha pra mim, Orfeu. Olha. Você nunca olha pra mim, não é, Orfeu? Então pelo menos me escuta. Pior ainda. Você nunca me ouve, Orfeu. Você acha que todo mundo vai sempre parar tudo o que está fazendo para ouvir você, não é, Orfeu? E vão adormecer como Cérbero, vão se emocionar como Caronte, vão se comover como Hades. E você, Orfeu, quando foi a última vez que você parou para me ouvir, Orfeu? Você me perguntou se eu queria que você viesse aqui me buscar, Orfeu? Eu sei, tudo o que você fez foi muito lindo, e eu agradeço do fundo do coração, Orfeu. Mas a verdade é que eu nunca quis voltar, Orfeu. Desde que aquela víbora me picou eu sou livre. Eu não tenho o medo da morte que vocês na terra sentem, Orfeu. Eu não tenho mais preocupações. Eu sou feliz. Eu sou feliz sem você, Orfeu. Pronto, era isso que você não suportaria ouvir, não é, Orfeu? Que toda essa sua jornada heróica não foi para me salvar, mas sim porque você não queria abrir mão de mim. Mas você vai ter que viver sem mim, Orfeu. Eu quero ficar, Orfeu. Orfeu, olha pra mim. Me escuta. Olha pra mim. Isso, Orfeu. Obrigado, Orfeu. Eu te amo, Orfeu. Adeus, Orfeu. Adeus. Adeus. Adeus.

Dramatis Personæ (202): Andur, o gênio imbecil

Quando o sábio rei Suleiman (Alá, porém, é mais sábio) aprisionou os gênios, forçando-os à obediência, houve apenas um que lhe escapou. Tratava-se, justamente, do mais poderoso entre eles, o mais astuto, o mais clarividente. Chamava-se Andur, e rivalizava em sabedoria com o próprio Suleiman. Por isso mesmo, percebeu que seria inútil tentar enfrentá-lo, e que mais valia ocultar-se aos seus olhos.

Andur, então, tomou a forma que jamais se poderia esperar de um gênio, ou seja, a de um imbecil. Tornou-se o mais estúpido dos homens, alvo de zombaria até mesmo dos escravos.

Tanto tempo permaneceu assim, e tanto se dedicou a parecer um imbecil, que enfim se tornou incapaz do mais básico raciocínio. E mesmo depois da morte de Suleiman (que Alá o tenha em sua glória) não foi capaz de abandonar seu disfarce, por ser obtuso demais para perceber que já não corria perigo. Vaga até hoje pelo mundo, penando sua estupidez.

Dizem que, na verdade, Andur nunca escapou da armadilha de Suleiman, que assim o condenou a ser prisioneiro da própria astúcia.

Dramatis Personæ (201): Luciano, o desesperantista

Servi-me da inabilidade com o francês para justificar as palavras presas na garganta, as palavras repetidas, gagas, a falta de vocabulário, a falta do que dizer.
LEVY, Tatiana Salem. Dois rios. Rio de Janeiro: Record, 2011.

Luciano chegou à conclusão de que o mal das relações humanas não é a falta de diálogo, mas o excesso dele. Se todos reconhecessem a incapacidade de comunicação, a necessária intradutibilidade dos sentimentos e ideias de cada um numa linguagem coletiva, todos viveriam em paz, sabendo que o discurso do outro não é o que se entende dele, e sim um universo à parte, do qual só se pode apreender (na melhor das hipóteses) uma analogia.

Na contramão de Zamenhof, passou a defender que cada pessoa tenha uma linguagem própria, não compartilhada com mais ninguém, para que toda conversa seja obrigatoriamente uma tradução.

Mitolorgias (1): Arjuna

E se Arjuna, depois do encontro com o mais sutil dos deuses, descesse a montanha convencido a entrar na batalha com sua fúria invencível; e se, armadura nos ombros, lança em punho, o fogo brilhando em seus olhos ao avistar os inimigos, um clarão interrompesse a sua carga por uma fração de segundo que durasse uma vida inteira; e se, durante essa fração de segundo, esse mesmo Arjuna, ciente da superioridade do agir correto sobre a inação, percebesse que naquele momento não era ele quem agia, e sim era a guerra que agia nele, por meio do seu corpo; e se Krishna, afinal, estivesse errado, e ele não fosse um guerreiro; e se o ser guerreiro fosse definido pelas suas ações, e não o contrário; e se deixar-se lutar fosse portanto inação, e o agir correto fosse parar onde estava, deitando ao chão lança e armadura?

Placas

Uma coisa que acho legal nas placas com os nomes das ruas no Rio de Janeiro é a informação, em letras miúdas, sobre quem é a pessoa ou coisa homenageada. Por exemplo: quem entra na Rua Buarque de Macedo, no Flamengo (ou também quem lembra dos versos: Recife. Ponte Buarque de Macedo./Eu, indo em direção à casa do Agra,/Assombrado com a minha sombra magra,/Pensava no Destino, e tinha medo!), pode sentir a curiosidade de quem foi ele. Político? Astronauta? Jogador de futebol? Nem precisa consultar a Wikipedia, é só olhar a placa:

Pronto: jornalista. Antigamente isso dava prestígio, vejam só.

Essa informação vai ser mais importante ainda, imagino, para as futuras gerações, quando as ruas poderão ter recebido os nomes de celebridades pop ou outras opções de memória ainda mais volátil. Por exemplo:

Ou então:

Ou ainda:

E até: