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Tudo o que você não sabia que precisava saber

Dramatis Personæ (139): Santana

A carreira na empresa foi meteórica. Em dois anos passou de estagiário a poeta sênior, e logo depois a gerente poético. Três anos depois foi promovido a Diretor de Poesia, com direito a bônus e um pacote de ações.

Hoje, porém, enfrenta uma situação difícil.

No mercado, de uma forma geral, a avaliação é de que o ex-enfant terrible perdeu a maior parte de seu élan desde que subiu para um escritório luxuoso no último andar da empresa. Na última reunião de diretoria, não conseguiu escapar das cobranças. O fraco desempenho do seu setor foi responsabilizado pela baixa produtividade nas fábricas e pela queda das vendas. Já se fala em substituí-lo, talvez por um especialista japonês que renove a cultura empresarial com um pouco de haikai.

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Biblioteca de Babel (72): 40 Sonetos Pop

Da orelha do livro:

“Camões, Dante, Petrarca e Góngora escreviam poemas sobre figuras mitológicas ou bíblicas. Fazia todo o sentido numa época em que o aprendizado de um jovem culto passava necessariamente pela leitura das obras de Virgílio. Hoje, porém, a realidade é outra. Por isso os 40 sonetos aqui apresentados se baseiam noutra mitologia, a corrente neste início de século XXI. Os personagens são nossos deuses: heróis de histórias em quadrinhos, protagonistas de videogames, pornestrelas, celebridades de reality shows, DJs.”

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Folhinha (29): Dia das Cócegas

O Dia das Cócegas, aparentemente, surgiu em 24 de janeiro de 1782. Diz a maioria dos relatos que o alcaide de Nova Flandres, titilado por sua esposa, caiu na risada quando anunciava em praça pública a execução dos líderes de uma rebelião. O povo, revoltado com a zombaria, atacou a guarda com plumas e penas,  fazendo os soldados contorcerem-se de riso e largarem as armas, para em seguida libertar os condenados e tomar o poder.

Causa estranheza, é verdade, a atitude da alcaidessa, e mais ainda o fato de toda a população estar armada com tais apetrechos. Por isso, muitos historiadores dão crédito à versão de que na mesma data, um ano antes, o bispo havia sido vítima da mesma peça, pregada por um coroinha, e desatado a rir no meio da homilia, no que foi seguido por todos os fiéis.

Na igreja ou na praça, portanto, surgiu a tradição dos novaflandrinos fazerem cócegas uns nos outros no dia 24 de janeiro. Os mais sensíveis não se arriscam a sair de casa, embora em mais de dois séculos jamais tenha havido um incidente fatal.

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Postais do Exílio (87): Museu dos Intangíveis

Nas extensas galerias, aparentemente não há nada exposto. Mas em cada canto, explicam os guias aos visitantes, foram contadas histórias, entoadas canções, transmitidos saberes. Quem prestar atenção poderá perceber um eco, às vezes impossível de explicar ou descrever, mas que muda para sempre uma pessoa. A maioria dos turistas, porém, passa rapidamente depois de tirar duas ou três fotos.

Uma ala especial é dedicada a sentimentos que não mais existem em seres humanos vivos, como a fúria de Aquiles e o amor de Tristão.

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Bestiário (108): Plauri

O bico do plauri é levíssimo. E magnético. Por isso, está sempre apontando para o norte.

Foi usando plauris como bússolas que os navegantes polinésios conseguiram chegar à América no século XIV.

Sua maior dificuldade é caçar no verão, quando a maioria de suas presas migra para o sul.

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Dramatis Personæ (138): Jeremias

Ao contrário de muitos de seus colegas de profissão, o garçom Jeremias não ficou conhecido por ser um bom ouvinte. Pelo contrário. É famoso por estar sempre abordando os clientes do bar e contando seus problemas. A cada rodada de chope são novas desgraças, tragédias, desilusões.

O patrão nunca reclamou. As lamentações de Jeremias conquistam a solidariedade dos fregueses, que nunca vão embora antes de saber cada detalhe dos infortúnios do garçom.

É o campeão das gorjetas.

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Folhinha (28): Noite dos Mascarados

Na noite de 13 de janeiro, os habitantes de Pontavecchia, no Piemonte, perto da fronteira com a França, organizam uma pantomima. Fantasiados e mascarados, improvisam suas representações, quase sempre baseadas em histórias bíblicas ou contos folclóricos. Atores sobem ao palco e descem dele, misturam-se com a plateia, voltam a atuar.  A maior parte do tempo, incógnitos.

Um dos atores, diz a tradição, é um demônio disfarçado que a cada ano recebe permissão para sair do inferno. Se alguém vaiar a atuação do demônio, será por ele perseguido e azarado até a próxima Noite dos Mascarados.

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Dramatis Personæ (137): Olívio

Nos vasos enfileirados sobre o mármore da janela, planta dentes, moedas, pilhas. Pedras, às vezes. E  cacos de vidro.

Rega. Aduba a terra. Protege do excesso de sol durante o verão. Arranca as ervas daninhas.

Até agora, nenhuma das sementes brotou. Até agora. Mas nunca se sabe.

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Biblioteca de Babel (71): Hormônia (Memórias endócrinas)

Como o título sugere e o subtítulo confirma, trata-se de um histórico de exames de dosagens de hormônios no sangue da autora, coletados diariamente ao longo de seis décadas – dos 12 aos 73 anos de idade.

Ainda que a ideia tenha surgido apenas depois da menarca, todas as outras mudanças estão lá. Paixões, humores, cóleras, descritos de forma absolutamente objetiva pelas flutuações de adrenalina, estrogênio, testosterona e endorfinas.

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Bestiário (107): Voadeira do Kainji

Tubarões precisam nadar o tempo todo. Se pararem, a água deixa de fluir pelas suas guelras e eles não conseguem respirar.

Coisa semelhante acontece com a voadeira do Kainji, que é incapaz de inspirar sozinha e só respira o ar que entra por suas narinas enquanto voa.

Voadeiras dormem de asas abertas, planando em correntes de vento. Reproduzem-se também em pleno voo.

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Postais do Exílio (86): Loja das Ideias

Em Paris, não deixe de conhecer La Boutique des Idées. Em funcionamento desde 1798, garante a todos os clientes que as ideias à venda são 100% originais.

Infelizmente, não é possível saber, antes de abrir-se o pote em que vem a ideia, de que tipo será, e menos ainda se será boa ou de jerico. D’âne, como se diz por lá.

Artistas decadentes e publicitários inescrupulosos rondam a porta da loja. Procuram, nos potes jogados ao chão pelos compradores, algum resto de ideia que tenha ficado no fundo. Cuidado: são tipos perigosos.

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Dramatis Personæ (136): Eleuzina

Artista incomparável, sofreu no início da carreira com a incompreensão dos críticos, que a julgavam limitada por pintar apenas autorretratos.

Ignorou-os. Continuou aperfeiçoando a técnica e o estilo, pintando-se cada vez melhor.

Então, veio a grande virada. A exposição em que apresentou uma variedade jamais encontrada na sua obra pregressa. Eram retratos, paisagens, naturezas-mortas. Os críticos aplaudiram: finalmente, disseram, Eleuzina rendeu-se aos conselhos recebidos e amadureceu como artista.

Não perceberam que todas as telas eram detalhes hiperampliados de autorretratos, e que os temas representados não eram mais que um reflexo na pupila de Eleuzina.

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Meninos, eu li (18)

Todas as resenhas que encontrei de “O centauro no jardim” (edição de 2011 da Cia. de Bolso), de Moacyr Scliar, viam a história de Guedali como uma fábula sobre o difícil equilíbrio entre integrar-se a uma cultura diferente e manter as tradições. E essa leitura vinha sempre, de forma mais ou menos explícita, com o carimbo de “literatura judaica”, uma estrela de Davi amarela pregada na lombada. É verdade que isso está lá. Mas, na minha opinião, as memórias do (ex-)centauro são principalmente um romance de formação, clássico, com o qual é muito fácil qualquer um se identificaro . A inadequação do personagem não vem somente do fato de ter nascido com torso e patas de cavalo. Ele sabe que nunca vai se encontrar, qualquer que seja o caminho que tome. E só uma aceitação de si mesmo permitirá fazer as pazes com o mundo.
Eu deveria ter gostado de “Gran Cabaret Demenzial” (Cosac Naify, 2007). As histórias curtas de Veronica Stigger, de certa forma, se parecem com o tipo de texto que eu escrevo aqui no Almanaque. O problema é uma tendência escatológica que depois de algum tempo perde totalmente a graça. Primeiro é o casal que vai se mudando em apartamentos cada vez menores até ter que ir morar no cu de um amigo. Depois é o verme que entra nos cus de todos os membros de uma família, que chamam a Baleia-sem-cu para resolver o problema. depois… chega, né? Só melhora um pouco no último texto, uma (falsa?) peça em um ato que, apesar de abusar um pouco dos personagens também nessa linha de exposição gratuita, consegue se resolver um pouco melhor.
Mesmo sabendo que vai sair uma versão mais barata, valeu a pena comprar a edição em capa dura de “Daytripper” (Panini, 2011) só para poder pegar autógrafo do Fábio Moon e do Gabriel Bá na Rio Comicon. Não preciso dizer muita coisa. Todo mundo já sabe que foi o melhor livro de quadrinhos brasileiro do ano. Os gêmeos mostram para todo mundo ver como se faz narrativa gráfica de primeira, com uma integração perfeita de imagem e texto. Nada sobra, nada falta. Se alguma coisa chega a incomodar um pouco, é justamente ser de certa forma “limpo” demais. Mas é claro que isso não atrapalha.
Se “A Dama-Morcega” (Landy, 2006) tivesse sido escrito por uma adolescente, seria um livro promissor. Vindo de uma adulta, apenas constrange. Nos melhores momentos, parece um argumento para episódio de “Além da Imaginação”. Nos piores, fanfiction de Crepúsculo, ou relato de sessão de RPG. Giulia Moon até encontra algumas boas ideias e visões originais em temas de horror e fantasia, mas desperdiça-as com um texto que não passa do pastiche. O último conto, misturando o Saci e o Menino Jesus, chega a dar pena justamente por isso: não adianta explorar temas folclóricos numa ficção fantástica brasileira se é para cair num diálogo piegas.
Foram duas revistas de “Hellblazer” nas bancas em dezembro. “Origens – volume 2″ misturou algumas histórias que eu já conhecia, mas que sempre merecem ser lidas de novo, com outras que são da mesma época mas eu não conhecia. O pacto com o demônio Nergal é para reler sempre. Já as aventuras com participação do Monstro do Pântano não são tão boas, mas tem o mérito de revelar um pouco mais do passado de John Constantine. “Passagens sombrias” é um achado em termos de premissa. O roteiro de Ian Rankim recupera o que sempre foi uma das melhores características de Constantine: usar o pretexto dos demônios para crítica político-social. A arte de Werther Dell Edera acompanha bem esse conceito, inclusive com uma boa sacada gráfica na virada de roteiro que acontece no meio do gibi.
O maior problema de “O bom Jesus e o infame Cristo” (Cia. das Letras, 2010) é ser mais longo do que devia. Esticado mesmo. A tese central é ótima: em vez de um filho, Maria teve gêmeos, os dois personagens-título. Mas Philip Pullman não precisava ter explorado praticamente cada episódio dos quatro Evangelhos, mostrando em cada caso o que Jesus realmente fez e o que Cristo transformou em versão oficial para criar uma religião. Um bom editor teria cortado metade do livro. De qualquer forma, vale como uma boa discussão sobre o que é a verdade, o que é o certo, o que é o bem. No fim, Cristo parece menos infame (scoundrel, no original) do que diz o título. É fácil entendê-lo – o que, afinal, não deixa de ser um mérito do autor.
Já na reta final da trama de “O Fantasma da Ópera” (edição da Ediouro, 2005), o Persa, que até ali parecia um personagem desnecessário, incluído apenas para dar um tempero exótico, explica o livro, ao dizer que veio de uma terra que preza demais a fantasia para se deixar confundir por um truque, o qual no entanto admira. A essa altura, Gaston Leroux já tinha revelado ao leitor que o Fantasma não passava de um homem, e que os eventos de aparência fantasmagórica eram todos passíveis de uma explicação que descartasse o sobrenatural. Contudo, isso não torna a aventura menos interssante. Pelo contrário. Leroux assume o truque como truque, mas ao fazer isso assume o ônus de criar um vilão de carne e osso mais terrível que um espírito. O ponto fraco do romance, em parte explicado pela forma de pseudorreportagem, é uma certa irregularidade narrativa, que fica flagrante, por exemplo, na indecisão do autor em utilizar os verbos no presente ou no passado.

(Resenhas publicadas também no Skoob.)

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Gugleiros (86)

As melhores buscas entre os visitantes do Almanaque no mês de dezembro.

Quinta, 1 – jogo do bicho bicho costuma vir com camelo
Carrapato.

Sexta, 2 – anamaria braga terminou o queacomte seu
Aconte meu?

Sábado, 3 – camelo ajoelha?
Em caminho de dromedário.

Domingo, 4 – grimorio inocuo
Achou.

Segunda, 5 – merineu
Achou também. Estamos ficando bons nesse negócio.

Terça, 6 – sonhei com muitos peixes numa sala empilhados qual significado
Que a sala era na verdade uma peixaria.

Quarta, 7 – a época dos tigres de bengala que tem um dentao
Um dentão só?

Quinta, 8 – fime porno filmado nafeitoria
“As pupilas do senhor feitor”.

Sexta, 9 – imagens de tatuagens de gatos siamês
Não dá para ver. O pelo cresce por cima.

Sábado, 10 – sonhos com minotauro jung
Se a cabeça era de touro, como você reconheceu que era Jung?

Domingo, 11 – o quer dizer sonhar com uma cobra rosa no armario ,
Ah, vai. Essa é fácil.

Segunda, 12 – superdesenvolvido hifen
Também conhecido como travessão.

Terça, 13 – “duas pessoas sao muitas coisas” folha de são paulo
Ainda não li, mas está na lista. Só esperando o lançamento no Rio, viu, Cris?

Quarta, 14 – que deus dê saude aos meus adversário para que assistam de pé ás minhas vitórias
Gramática, essa adversária implacável.

Quinta, 15 – seres que habitam o submundo
Se forem como a minha vizinha do apartamento do subsolo, mantenha distância.

Sexta, 16 – life on another planet will eisner
Recomendo.

Sábado, 17 – dor de barriga desenho
Pinta tudo de marrom e está resolvido.

Domingo, 18 – desenhos de jogos para fazer na unha
Acho que vou desenhar na minha aquele Fla-Flu de 85, do gol do Leandro.

Segunda, 19 – clonar pessoas meme
Não pegou.

Terça, 20 – travessia fundo zelins 2222222222
Ah, as buscas aleatórias.

Quarta, 21 – qual o nome de onde se ajuelha para faz er voto de casamento
Igreja.

Quinta, 22 – não filha das pessoas que lá moram, mas das casas, das ruas, dos chafarizes
Não, filha. Copiou errado.

Sexta, 23 – o que a com teseu com a roxele
Jasão anos que não ouço falar, perseu beu?

Sábado, 24 – sonho com lacraia rosa significado
Ela também estava no armário?

Domingo, 25 – onde comprar barras e fitas para matar traças?
Mata com chinelo mesmo. É mais barato.

Segunda, 26 – desenho na unha do vasco
Tem que ser feito na segunda unha. A que é vice.

Terça, 27 – blog do juiz marcos farias
Não é aqui.

Quarta, 28 – na cultura afro o significa sonhar com centauro
Influência da cultura grega.

Quinta, 29 – desenhos gregos com significado demetrius para tatuagens
Demetrius aquele, da Jovem Guarda?

Sexta, 30 – desenho dragão verde de duas cabeças um macho e uma femea , uma dragão rosa
Por favor, tente uma busca mais específica.

Sábado, 31 – qual e significado de sonhar com chuchu
Se o sonho é com chuchu, imagina que vida insossa.


E as dez expressões mais procuradas no mês foram:

almanaque 97
sonhar com lacraia 51
unhas de bichinhos 27
tigre 17
tigre de bengala 15
sonhar com minotauro 12
almanaque dos sonhos 12
parábolas 10
livro de gog 9
unhas com bichinhos 8

Bônus! As 20 buscas campeãs de 2011:

almanaque 2.067
dia do inimigo 550
tigre de bengala 550
sonhar com lacraia 394
tigre 278
sonhar com minotauro 219
bicho geométrico 184
o que é almanaque 173
almanaque abril 2011 129
unhas de bichinhos 107
logotomia 100
quarta feira de trevas 96
tigres 82
tigres de bengala 80
o que é um almanaque 70
bicho geométrico 65
sonhar com lacraias 63
chafariz 60
unhas com bichinhos 54
largo do machado 53

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Criptoetimologia (48): Estabanada

Stabat mater dolorosa,
iuxta crucem lacrymosa,
dum pendebat filius

“Estava a mãe dolorosa junto à cruz lacrimosa, da qual pendia seu filho”, dizem os primeiros versos do Stabat Mater, hino católico escrito no século XIII por Jacopone da Todi. A letra se tornou uma das mais populares da música sacra, ganhando novas melodias de autores como Palestrina, Scarlatti e Vivaldi. E, no Brasil, por João de Deus de Castro Lobo (1794-1832).

Foi a versão de Castro Lobo que influenciou a língua portuguesa.

Já era o tempo da Regência, após a renúncia do imperador Pedro I. Dona Ernestina Vieira, a Marquesa de Mariana, era uma grande apreciadora das artes e da música. Por isso, logo após a morte de Castro Lobo, decidiu oferecer um recital em homenagem ao compositor. E ela mesma fez questão de cantar o Stabat Mater.

Porém, se a marquesa amava a música, esse amor não era correspondido. E logo nos primeiros versos a audiência se espantou com a voz esganiçada e desafinada. Para piorar, a marquesa, nervosa, errou a letra: em vez de “Stabat mater dolorosa”, cantou “Stabat nada dolorosa”, o que além do mais não queria dizer coisa alguma.

“Estabanada dolorosa” foi como os fidalgos de Mariana e arredores passaram a se referir à cantora. E “estabanada” virou sinônimo de pessoa desajeitada, sem preparo.

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Biblioteca de Babel (70): Névoa Concreta

Névoa Concreta é um longo poema escrito na linguagem dos sinais de fumaça dos Sioux.

Foi criado e interpretado simultaneamente ao longo de seis horas ininterruptas sob um céu imaculadamente azul num dia de verão, em 1976.

A Biblioteca de Babel guarda uma cópia.

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Biblioteca de Babel (69): Terra

Depois do sucesso de suas séries anteriores (Maygara e Anantva, ambas batizadas com os nomes dos planetas fictícios que lhes serviam de cenário), R.H. Mass voltou a revolucionar a ficção-científica com o lançamento de Terra.

Logo no primeiro volume de Terra, o leitor assiste fascinado à descrição de um planeta exatamente igual ao nosso. Em tudo, nos mínimos detalhes: da formação geológica à biodiversidade, do surgimento da espécie humana na África à Revolução Industrial na Europa.

Como se não bastasse, os personagens de Terra são tão humanos quanto nós. Suas relações interpessoais e sociais, seus sonhos, desejos e defeitos, suas falas convencem o leitor, graças à verossimilhança que o cuidadoso trabalho demiúrgico lhes confere.

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Postais do Exílio (85): Anticatedral de Vignon

Nos subterrâneos da catedral gótica de Vignon foi construída uma outra, inteiramente simétrica.

Subterrânea, invertida, ela celebra os pecados em vez da santidade. Nos seus vitrais, que luz nenhuma revela, Santo Antão cede às tentações, e Santa Maria Madalena continua exercendo a sua profissão.

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Criptoetimologia (47): Presunto

Sunto é uma palavra puco usada, mas está na raiz do adjetivo suntuoso e significa fartura, abundância. A origem é o latim sumptum, do verbo sumo, traduzido como apoderar-se, tomar, mas também comprar; através de sumptus, significando gasto, despesa.

O presunto era um prato caro e reservado aos nobres na Roma antiga. Para garantir a sua presença na mesa, o encarregado da cozinha devia encomendá-lo aos criadores de porcos, pagando antecipadamente para que um bom leitão fosse engordado nas semanas anteriores. Era um gasto prévio, um pre-sumptus, que garantia uma refeição sumptuosa.

Considerando-se que as compras no supermercado frequentemente são pagas com o cartão de crédito, talvez fosse mais adequado renomear o presunto da ceia de Natal e chamá-lo de pós-sunto.

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Postais do Exílio (84): Casagaia

Toda pessoa que já passou uma noite na Casagaia foi feliz.

Não surpreende, portanto, que tantas pessoas quisessem se hospedar na casa. Seus donos tentaram manter a situação sob controle por algum tempo, mas, quando se viram sem condições de atender à demanda, cederam à oferta de uma empresa do ramo de hotelaria.

Hoje a Casagaia é um hotel comum, e quem nela se hospeda não sai mais feliz do que entrou. Quase sempre, sai menos feliz, devido à frustração. Mas a fama se mantém, mesmo porque poucos admitem que pagaram caro por uma experiência insatisfatória, e a administração só aceita reservas para daqui a dois anos.

Os antigos donos compraram outra casa. E de vez em quando ainda recebem os amigos, sempre felizes.

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Almanaque

Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc. (Houaiss). Do árabe al-munákh, "lugar onde o camelo se ajoelha", ponto de encontro e de conversa dos beduínos. Repertório, endimião, camião, sarrabal.

E como já dizia Roland Barthes, tudo aqui deve ser considerado como dito por um personagem de romance.

Marcos Faria

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