Biblioteca de Babel (107): Mil Folhas

Da mesma forma que a iguaria cujo nome recebeu¹, foi feito com diversas camadas de massa doce assadas. Sobre elas, o texto foi escrito em chocolate.

Do seu conteúdo é difícil falar. Raros foram os leitores que resistiram à tentação de comer uma página ou duas. Das (presumidas) mil folhas originais, restam hoje pouco mais de 30, que não chegam a formar um texto coerente.

E a cada dia mais um trecho desaparece. Os bibliotecários de Babel não sabem explicar como.


¹ É uma hipótese. Mas, como o ovo e a galinha, ninguém sabe qual dos dois surgiu primeiro. Talvez o doce tenha vindo depois do livro, e dele recebido o nome.

Postais do Exílio (119): A Avenida

A Avenida é o nome da cidade e da sua principal avenida. Aliás, a única. A cidade consiste de uma única via expressa, que se estende por quilômetros em linha reta, com várias pistas de ida e volta.

A Avenida cresce continuamente, nos dois sentidos, mas nunca em transversais. Toda vez que uma casa velha é derrubada surgem especulações de que ali haverá uma esquina, mas logo um novo prédio se ergue ali para aproveitar o terreno bem localizado, de frente para A Avenida.

Há moradores que jamais foram até o fim (ou o começo) da Avenida, passando suas vidas inteiras entre a maternidade do número 2.305 e o asilo do 34.501, por exemplo.

Biblioteca de Babel (106): Capítulo 7

No total, são 13 capítulos. Os seis primeiros são conhecidos, assim como os seis últimos. Nada disso faz sentido, porém, sem o central – na estrutura e no sentido – Capítulo 7.

Dependendo do que for o conteúdo desse capítulo desaparecido, o livro pode ser um romance épico, uma sátira, um ensaio crítico ou um guia. Entre os textos propostos como alternativas, há até mesmo um Capítulo 7 sem qualquer relação com o resto do livro, uma zombaria na cara do leitor. Mas é claro que o verdadeiro Capítulo 7, quando finalmente encontrado, se mostrará diferente de tudo o que foi imaginado.

Talvez o Capítulo 7 não exista. Talvez o verdadeiro sentido do livro seja a busca. Talvez o fato de um livro ser chamado por aquilo que ele não tem seja o que há de mais importante a se dizer ao seu respeito.

Dramatis Personæ (178): Gumercindo

Trabalhava como guarda noturno na mais pacífica vila do interior. Sem ter o que policiar nem a quem prender, para quebrar a monotonia de suas rondas passou a imaginar cenas de ação naquelas vielas escuras e desertas. Sacava a arma contra bandidos inexistentes, descobria pistas para elucidar mistérios hipotéticos, perseguia a sombra de um vento.

Numa noite de inverno, uma ficção emboscou-o na esquina e matou-o à traição.

Bestiário (139): Tiole

O tiole é verbívoro.

Instala-se na garganta e consome todas as palavras que o hospedeiro tenta dizer.

A mudez causada pelo tiole é tão terrível quanto o fato de que o silêncio não leva à introspecção ou a estados meditabundos. Pelo contrário, provoca ânsias de falar mais e mais, sempre frustradas. A palavra presa na garganta vira um grito, mas do grito não sai nem um sussurro.

Biblioteca de Babel (105): O Mar e o Velho

“Ele era um velho marlim que nadava sozinho na Corrente do Golfo”, diz a primeira linha dessa novela. A história é simples e bem conhecida por aqueles que leram “O Velho e o Mar” de Hemingway. A diferença é que ela é contada do ponto de vista do peixe, e não do de Santiago.

São longas páginas acompanhando a luta do magnífico animal depois de fisgado, usando toda a sua energia e o melhor da sua estratégia para derrotar o pescador. Até que ele finalmente adormece, sonhando com leões marinhos.

Criptoetimologia (68): Tambor

É cada vez mais desacreditada a hipótese de que a palavra seja originada do árabe ṭanbūr: este, afinal, é um tipo de alaúde, assim como a tambura indiana ou a tamburica espanhola, essas sim suas cognatas.

Tambor, porém, é percussão. Portanto, a história é outra.

O nome surgiu nos porões dos navios, das antigas birremes e trirremes romanas, onde o compasso dos remadores era marcado pelas batidas do contramestre num grande tímpano. A monótona marcação era acompanhada por um canto que reproduzia o som, primeiro da batida da baqueta, depois do couro sendo abafado com a mão: TAM-bor, TAM-bor, TAM-bor. E dessa onomatopeia veio o nome do instrumento.


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